Um bom fim de semana com muita tesão a todas e todos
AVISO Todas as imagens, videos, piadas e textos que aparecem neste blog foram retiradas da internet em sites de domínio público. Exceto as imagens que foram enviadas por leitores. Caso haja algum dano aos autores ou detentores dos direitos autorais, peço que enviem um e-mail pedindo a remoção. Grato
sábado, 29 de outubro de 2011
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Justiça seja feita
Fêz-se vingança, não justiça
05/05/2011
por Leonardo Boff
Alguém precisa ser inimigo de si mesmo e contrário aos valores humanitários mínimos se aprovasse o nefasto crime do terrorismo da Al Qaeda do 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque. Mas é por todos os títulos inaceitável que um Estado, militarmente o mais poderoso do mundo, para responder ao terrorismo se tenha transformado ele mesmo num Estado terrorista. Foi o que fez Bush, limitando a democracia e suspendendo a vigência incondicional de alguns direitos, que eram apanágio do pais. Fez mais, conduziu duas guerras, contra o Afeganistão e contra o Iraque, onde devastou uma das culturas mais antigas da humanidade nas qual foram mortos mais de cem mil pessoas e mais de um milhão de deslocados.
Cabe renovar a pergunta que quase a ninguém interessa colocar: por que se produziram tais atos terroristas? O bispo Robert Bowman de Melbourne Beach da Flórida que fora anteriormente piloto de caças militares durante a guerra do Vietnã respondeu, claramente, no National Catholic Reporter, numa carta aberta ao Presidente:”Somos alvo de terroristas porque, em boa parte no mundo, nosso Governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque nos odeiam. E nos odeiam porque nosso Governo faz coisas odiosas”.
Não disse outra coisa Richard Clarke, responsável contra o terrorismo da Casa Branca numa entrevista a Jorge Pontual emitida pela Globonews de 28/02/2010 e repetida no dia 03/05/2011. Havia advertido à CIA e ao Presidente Bush que um ataque da Al Qaeda era iminente em Nova York. Não lhe deram ouvidos. Logo em seguida ocorreu, o que o encheu de raiva. Essa raiva aumentou contra o Governo quando viu que com mentiras e falsidades Bush, por pura vontade imperial de manter a hegemonia mundial, decretou uma guerra contra o Iraque que não tinha conexão nenhuma com o 11 de setembro. A raiva chegou a um ponto que por saúde e decência se demitiu do cargo.
Mais contundente foi Chalmers Johnson, um dos principais analistas da CIA também numa entrevista ao mesmo jornalista no dia 2 de maio do corrente ano na Globonews. Conheceu por dentro os malefícios que as mais de 800 bases militares norte-americanas produzem, espalhadas pelo mundo todo, pois evocam raiva e revolta nas populações, caldo para o terrorismo. Cita o livro de Eduardo Galeano “As veias abertas da A.Latina” para ilustrar as barbaridades que os órgãos de Inteligência norte-americanos por aqui fizeram. Denuncia o caráter imperial dos Governos, fundado no uso da inteligiência que recomenda golpes de Estado, organiza assassinato de líderes e ensina a torturar. Em protesto, se demitiu e foi ser professor de história na Universidade da Califórnia. Escreveu três tomos “Blowback”(retaliação) onde previa, por poucos meses de antecedência, as retaliações contra a prepotência norte-americana no mundo. Foi tido como o profeta de 11 de setembro. Este é o pano de fundo para entendermos a atual situação que culminou com a execução criminosa de Osama Bin Laden.
Os órgãos de inteligência norte-americanos são uns fracassados. Por dez anos vasculharam o mundo para caçar Bin Laden. Nada conseguiram. Só usando um método imoral, a tortura de um mensageiro de Bin Laden, conseguiram chegar ao su esconderijo. Portanto, não tiveram mérito próprio nenhum.
Tudo nessa caçada está sob o signo da imoralidade, da vergonha e do crime. Primeiramente, o Presidente Barak Obama, como se fosse um “deus” determinou a execução/matança de Bin Laden. Isso vai contra o princípio ético universal de “não matar” e dos acordos internacionais que prescrevem a prisão, o julgamento e a punição do acusado. Assim se fez com Hussein do Iraque,com os criminosos nazistas em Nürenberg, com Eichmann em Israel e com outros acusados. Com Bin Laden se preferiu a execução intencionada, crime pelo qual Barak Obama deverá um dia responder. Depois se invadiu território do Paquistão, sem qualquer aviso prévio da operação. Em seguida, se sequestrou o cadáver e o lançaram ao mar, crime contra a piedade familiar, direito que cada família tem de enterrar seus mortos, criminosos ou não, pois por piores que sejam, nunca deixam de ser humanos.
Não se fez justiça. Praticou-se a vingança, sempre condenável.”Minha é a vingança” diz o Deus das escrituras das três religiões abraâmicas. Agora estaremos sob o poder de um Imperador sobre quem pesa a acusação de assassinato. E a necrofilia das multidões nos diminui e nos envergonha a todos.
Leonardo Boff é autor de Fundamentalismo,terrorismo , religião e paz, Vozes 2009.
Cabe renovar a pergunta que quase a ninguém interessa colocar: por que se produziram tais atos terroristas? O bispo Robert Bowman de Melbourne Beach da Flórida que fora anteriormente piloto de caças militares durante a guerra do Vietnã respondeu, claramente, no National Catholic Reporter, numa carta aberta ao Presidente:”Somos alvo de terroristas porque, em boa parte no mundo, nosso Governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque nos odeiam. E nos odeiam porque nosso Governo faz coisas odiosas”.
Não disse outra coisa Richard Clarke, responsável contra o terrorismo da Casa Branca numa entrevista a Jorge Pontual emitida pela Globonews de 28/02/2010 e repetida no dia 03/05/2011. Havia advertido à CIA e ao Presidente Bush que um ataque da Al Qaeda era iminente em Nova York. Não lhe deram ouvidos. Logo em seguida ocorreu, o que o encheu de raiva. Essa raiva aumentou contra o Governo quando viu que com mentiras e falsidades Bush, por pura vontade imperial de manter a hegemonia mundial, decretou uma guerra contra o Iraque que não tinha conexão nenhuma com o 11 de setembro. A raiva chegou a um ponto que por saúde e decência se demitiu do cargo.
Mais contundente foi Chalmers Johnson, um dos principais analistas da CIA também numa entrevista ao mesmo jornalista no dia 2 de maio do corrente ano na Globonews. Conheceu por dentro os malefícios que as mais de 800 bases militares norte-americanas produzem, espalhadas pelo mundo todo, pois evocam raiva e revolta nas populações, caldo para o terrorismo. Cita o livro de Eduardo Galeano “As veias abertas da A.Latina” para ilustrar as barbaridades que os órgãos de Inteligência norte-americanos por aqui fizeram. Denuncia o caráter imperial dos Governos, fundado no uso da inteligiência que recomenda golpes de Estado, organiza assassinato de líderes e ensina a torturar. Em protesto, se demitiu e foi ser professor de história na Universidade da Califórnia. Escreveu três tomos “Blowback”(retaliação) onde previa, por poucos meses de antecedência, as retaliações contra a prepotência norte-americana no mundo. Foi tido como o profeta de 11 de setembro. Este é o pano de fundo para entendermos a atual situação que culminou com a execução criminosa de Osama Bin Laden.
Os órgãos de inteligência norte-americanos são uns fracassados. Por dez anos vasculharam o mundo para caçar Bin Laden. Nada conseguiram. Só usando um método imoral, a tortura de um mensageiro de Bin Laden, conseguiram chegar ao su esconderijo. Portanto, não tiveram mérito próprio nenhum.
Tudo nessa caçada está sob o signo da imoralidade, da vergonha e do crime. Primeiramente, o Presidente Barak Obama, como se fosse um “deus” determinou a execução/matança de Bin Laden. Isso vai contra o princípio ético universal de “não matar” e dos acordos internacionais que prescrevem a prisão, o julgamento e a punição do acusado. Assim se fez com Hussein do Iraque,com os criminosos nazistas em Nürenberg, com Eichmann em Israel e com outros acusados. Com Bin Laden se preferiu a execução intencionada, crime pelo qual Barak Obama deverá um dia responder. Depois se invadiu território do Paquistão, sem qualquer aviso prévio da operação. Em seguida, se sequestrou o cadáver e o lançaram ao mar, crime contra a piedade familiar, direito que cada família tem de enterrar seus mortos, criminosos ou não, pois por piores que sejam, nunca deixam de ser humanos.
Não se fez justiça. Praticou-se a vingança, sempre condenável.”Minha é a vingança” diz o Deus das escrituras das três religiões abraâmicas. Agora estaremos sob o poder de um Imperador sobre quem pesa a acusação de assassinato. E a necrofilia das multidões nos diminui e nos envergonha a todos.
Leonardo Boff é autor de Fundamentalismo,terrorismo , religião e paz, Vozes 2009.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Não feche os olhos
Niemöller para nosso tempo
Primeiro rifaram os índios.
Não me importei, pois não sou índio.
E a indústria precisa da energia
Em seguida, as mulheres e seus direitos reprodutivos.
Não me importei, pois não sou mulher.
Era meio impopular, defender aborto.
Depois foi a vez dos negros.
Não me importei, pois não sou negro.
E o que é um livro racista na escola ante a eleição na cidade maior?
Daí rifaram os lavradores.
Não me importei, pois moro na cidade.
E as exportações de soja me subsidiam a gasolina.
Na sequência foram os jovens geeks e hackers.
Não me importei, pois uso Windows.
E devíamos mesmo uns favores à classe artística.
Largaram os sobreviventes e enlutados.
Não me importei, pois não perdi ninguém na ditadura.
E alguns aliados tinham lá seus ossos no armário.
Daí rifaram gays e lésbicas.
Não me importei, sou hétero.
E afinal, o que era a lei ante a multidão de eleitores conversos?
Quando me rifaram
Não havia mais quem (se) importasse.
Não me importei, pois não sou índio.
E a indústria precisa da energia
Em seguida, as mulheres e seus direitos reprodutivos.
Não me importei, pois não sou mulher.
Era meio impopular, defender aborto.
Depois foi a vez dos negros.
Não me importei, pois não sou negro.
E o que é um livro racista na escola ante a eleição na cidade maior?
Daí rifaram os lavradores.
Não me importei, pois moro na cidade.
E as exportações de soja me subsidiam a gasolina.
Na sequência foram os jovens geeks e hackers.
Não me importei, pois uso Windows.
E devíamos mesmo uns favores à classe artística.
Largaram os sobreviventes e enlutados.
Não me importei, pois não perdi ninguém na ditadura.
E alguns aliados tinham lá seus ossos no armário.
Daí rifaram gays e lésbicas.
Não me importei, sou hétero.
E afinal, o que era a lei ante a multidão de eleitores conversos?
Quando me rifaram
Não havia mais quem (se) importasse.
Pênalti perdido
A metafísica do pênalti perdido
Idelber Avelar é colunista da Revista Fórum outro mundo em debate.
Adoro o escritor austríaco Peter Handke. Mas só mesmo alguém que não entende nada de futebol pode escrever um romance intitulado A angústia do goleiro diante do pênalti. Ora, qualquer criança sabe que se há alguma angústia, ela é do batedor. O goleiro só tem a ganhar. O texto de hoje é uma reflexão sobre essa estranha expressão, “perder um pênalti“.
Para perder-se alguma coisa, supõe-se que nós a tenhamos. Mas quem tem o pênalti, desde o momento em que ele é marcado, é o goleiro. O goleiro é o dono do pênalti, mas só o cobrador pode perdê-lo. Perder o que não se tem, eis aí a tragédia do pênalti para o batedor. Quem já amou sabe do que falo. A partir do momento da marcação, o atacante recebe um presente de grego, um presente ao qual ele só pode, na melhor das hipóteses, fazer jus: confirmar o que todos esperam e fazer o gol. Ele só pode, se convertê-lo, ficar quites. Se não convertê-lo, estará em débito com o presente recebido, terá se mostrado indigno de recebê-lo: um mau recebedor de presentes, um ingrato. Não há angústia do goleiro na cobrança do pênalti. A verdadeira angústia é a do batedor: a angústia dos que só têm a perder.
Quem se lembra dos pênaltis convertidos? Ninguém. Só os pênaltis perdidos têm morada na memória. Quantos gols de pênalti terá feito o Zico? Dezenas muitas. Mas todos se lembram do pênalti perdido em 1986, contra a França. Convertido, aquele pênalti teria levado o Brasil às semifinais da Copa do Mundo. Não há jogador mais amado pelos atleticanos que Toninho Cerezzo, mas a memória mais marcante desse que tanto ganhou nunca deixou de ser o pênalti chutado quase nas arquibancadas na decisão de 1977, no fatídico 05 de março de 1978, de tão triste memória para todos nós que achamos que o futebol e o jiu-jitsu devem continuar sendo dois esportes diferentes.
Os italianos, coitados, são especialistas em reminiscências de penalidades máximas. Lembram-se de serem eliminados nos pênaltis das copas de 90, 98 e, claro, de Baresi, herói e grande craque da decisão de 94, zagueiraço que anulou Romário e Bebeto durante 120 minutos, chutando para o espaço, ironicamente, o pênalti que começou a entregar o tetracampeonato ao modesto escrete feijão-com-arroz de Parreira.
Dos pênaltis convertidos só nos lembramos por coisas alheias ao pênalti mesmo, como o milésimo gol de Pelé. Até nisso o pênalti foi irônico: aquele que marcou gol de tudo quanto foi jeito, de letra, de cabeça subindo na testada, de cabeça mergulhando no peixinho, de costas, por cobertura, de voleio, de bicicleta, de meio-voleio, espírita, de placa, além de quase todas as combinações possíveis entre eles, o gênio que fez mil duzentos e tantos desse momento único que não conhece nenhum outro esporte, pois ele, o Rei maior, teve que se resignar a marcar o milésimo de pênalti, arrastado, chorado, com o goleiro Andrada quase pegando a bola pelo rabo, quase humilhando o Rei ali na boca da butija, com o teatrão todo preparado já para a festa do seu gol mil. A bola entrou e o Rei escapou por pouco, como escapou tantas vezes, mas não eludiu o gostinho amargo de que o milzão foi feito ali, na obrigação protocolar do penal.
Quem se lembra dos pênaltis convertidos? Ninguém. Só os pênaltis perdidos têm morada na memória. Quantos gols de pênalti terá feito o Zico? Dezenas muitas. Mas todos se lembram do pênalti perdido em 1986, contra a França. Convertido, aquele pênalti teria levado o Brasil às semifinais da Copa do Mundo. Não há jogador mais amado pelos atleticanos que Toninho Cerezzo, mas a memória mais marcante desse que tanto ganhou nunca deixou de ser o pênalti chutado quase nas arquibancadas na decisão de 1977, no fatídico 05 de março de 1978, de tão triste memória para todos nós que achamos que o futebol e o jiu-jitsu devem continuar sendo dois esportes diferentes.
Os italianos, coitados, são especialistas em reminiscências de penalidades máximas. Lembram-se de serem eliminados nos pênaltis das copas de 90, 98 e, claro, de Baresi, herói e grande craque da decisão de 94, zagueiraço que anulou Romário e Bebeto durante 120 minutos, chutando para o espaço, ironicamente, o pênalti que começou a entregar o tetracampeonato ao modesto escrete feijão-com-arroz de Parreira.
Dos pênaltis convertidos só nos lembramos por coisas alheias ao pênalti mesmo, como o milésimo gol de Pelé. Até nisso o pênalti foi irônico: aquele que marcou gol de tudo quanto foi jeito, de letra, de cabeça subindo na testada, de cabeça mergulhando no peixinho, de costas, por cobertura, de voleio, de bicicleta, de meio-voleio, espírita, de placa, além de quase todas as combinações possíveis entre eles, o gênio que fez mil duzentos e tantos desse momento único que não conhece nenhum outro esporte, pois ele, o Rei maior, teve que se resignar a marcar o milésimo de pênalti, arrastado, chorado, com o goleiro Andrada quase pegando a bola pelo rabo, quase humilhando o Rei ali na boca da butija, com o teatrão todo preparado já para a festa do seu gol mil. A bola entrou e o Rei escapou por pouco, como escapou tantas vezes, mas não eludiu o gostinho amargo de que o milzão foi feito ali, na obrigação protocolar do penal.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Orgamos feminino
O orgasmo feminino não é uma equação matemática, x+y²= orgasmo. Proporcionar um orgasmo a uma mulher é algo mais parecido com reger uma orquestra, encontrar a harmonia perfeita, estimular diferentes pontos e só então ter como resposta a execução da sinfonia perfeita. Assim como determinados instrumentos necessitam de uma afinação específica, cada mulher possui uma maneira diferente de se excitar e gozar. Não existe normalização sexual, feminina ou masculina. Se é um preguiçoso(a), não quer ter trabalho ou empenho em ter e dar prazer, fique sozinho e contente-se com a masturbação!FonteVida secreta
Postado por Hannamay
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
domingo, 23 de outubro de 2011
Caetano Veloso - Asa Branca (Discorama, 1972)
Tem dois dias que chove fino e faz frio, estou de molho em casa...
Bom domigo a todas e todos
aproveitem o domingo para uma boa trepada...
- Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isto para uma ocasião especial. Hoje é especial.
- Prepare-se mais do que o necessário, depois siga com o fluxo.
- Seja excêntrico agora. Não espere pela velhice para vestir roxo.
- O órgão sexual mais importante é o cérebro.
- Ninguém mais é responsável pela sua felicidade, somente você..
sábado, 22 de outubro de 2011
Portugal, uns fados
Os Fados da Mouraria
Por Túlio Villaça
Uma coisa que sempre me deixou encasquetado em relação à formação musical brasileira é a nossa quase absoluta falta de comunicação com certas culturas muito próximas. Uma delas é a da América Latina, com sua imensa riqueza de tangos, milongas, habaneras, mambos e rumbas - com a honrosa, mas muito contestada, exceção do bolero. Mas esta é talvez historicamente explicável pelo isolamento entre Brasil e o restante da AL, devido aos conflitos entre as colonizações portuguesa e espanhola. O que não posso entender é o motivo desta incomunicabilidade com Portugal, e porque estilos como o vira e o fado são vistos como exóticos e mesmo cafonas por aqui, apesar de nossas raízes comuns.
E esta visão de exotismo se torna ainda mais estranha ao se saber que o fado, assim como o choro e o samba, tem sua origem nos mesmíssimos formatos musicais, a modinha e o lundu. Embora haja também uma clara influência moura no fado, não há nenhum registro deste estilo antes do século XIX. Outro ponto em comum é o fato de fado e samba terem sido ritmos ligados à marginalidade. Cantoras de fado em geral eram prostitutas, e isto se reflete nas letras de muitos fados clássicos, cantados do ponto de vista feminino e falando de amores bandidos – aliás, as referências aos homens amados e infiéis como ciganos são outra ligação com este submundo, uma vez que os ciganos, como os mouros (com diferenças históricas importantes, claro), sempre foram considerados um povo intruso e mal vistos pela população.
Mas discutir as origens do fado é tarefa para estudiosos com bem mais estofo que eu. Limito-me agora a indicar o excelente Blog da Severa (Maria Severa, tida como a primeira cantora de fado), onde as tradições do estilo são esmiuçadas, e o Museu do Fado (aqui a ótima página que conta sua história). Do que eu trato aqui são das possibilidades do fado como estilo de canção, e são imensas justamente no lidar com esta tradição.
Ai, Mouraria – Amália Rodrigues (letra aqui)
Antes de tudo, uma explicação: a Mouraria é o antigo bairro mouro de Lisboa (sim, mouros e cristãos conviveram em relativa harmonia durante séculos na Península Ibérica, explicam os historiadores hoje). Havia também a Judiaria, que hoje não existe mais, assim como a Mouraria é hoje um bairro aberto a todo credo - tanto que há nele a Rua do Capelão. E na Rua do Capelão há o Largo da Severa, em homenagem à fadista que viveu ali. Assim, a Mouraria tem uma relação, digamos, geográfica, com o surgimento do fado, para além de questões de estilo – que também as há.
Ai, Mouraria é um clássico do fado, gravada por quase todo fadista que se preze. É uma canção delicada, com uma parte em tom maior e outra em tom menor – e aí cabe notar que a primeira parte, em tom menor, é inteiramente dedicada à lembrança do amado que se foi, e a segunda, em tom maior, é toda voltada a relembrar o território, o bairro, as ruas. Existe como que uma territorialização do sentimento, uma ligação profunda com o lugar, mas que aqui aparece dividida, como se o espaço físico servisse de consolo para a ausência da pessoa, uma identificação quase completa entre eles. Quase, porque permanecem um em cada tom, um em cada estrofe.
Amália, claro, segue o instrumental ritmicamente homogêneo e cadenciado que é tradicional, e sobre esta cama de cordas dedilhadas sua voz não se derrama, mas se contém. O canto do fado é de um imenso sofrimento que não se abre, que é cheio de subentendidos na voz que se desdobra em melismas, mas permanece digna, como digna é a figura da cantora, herdeira das prostitutas de bares e cafés, mas de xale negro e uma rosa ao cabelo, a rosa chamando à vida, o xale lembrando um luto que nunca termina. As quase paradas da música são como tentativas de a interpretação escapar e se derramar, mas logo reprimidas. Uma dor cotidiana.
Corta para Dulce Pontes cantando o Novo fado da Severa (letra aqui - Dulce não canta a segunda estrofe)
O Fado da Severa original é de 1848, de autoria de Sousa do Casacão, e refere-se à própria Maria Severa, que falecera um ano antes (veja a letra aqui). Este é de Júlio Dantas e Frederico de Freitas e já se refere ao lugar, ao Largo da Severa, na Rua do Capelão, na Mouraria (outra vez a passagem de pessoa a território). Júlio foi o autor, em 1901, do romance A Severa, que em 1931 tornou-se o primeiro filme falado de Portugal, com esta canção na trilha sonora. Outra dificuldade da conciliação surge nos versos finais, que expressam um desejo supremo: Viver abraçada ao fado, morrer abraçada a ti. Ou o fado, ou o homem amado, nunca na vida os dois juntos, sempre uma falta, uma ausência.
A interpretação de Dulce Pontes é a explicitação do implícito no fado. As gravações dela foram acompanhadas de muito sucesso e um bocado de polêmica, por ela escancarar em sua interpretação o sofrimento contido de Amália, mais até do que por seus arranjos pop. Mesmo havendo uma marcação rítmica, ela se permite adiantar ou estender as frases à vontade, ad libitum, derramar completamente a voz. Para isso também contribui a diminuição sensível do andamento em relação ao fado tradicional. Por outro lado, isto permite a ela exacerbar uma característica que já é da interpretação do fado – e que é um dos indícios da ligação do fado à influência moura: os abundantes ornamentos vocais, arabescos, sem os quais as melodias do fado se tornam quase irreconhecíveis, a ponto de se poder afirmar que eles fazem parte da própria estrutura das canções.
Voltemos para Amália, cantando Zanguei-me com meu amor (letra aqui)
Zanguei-me tem letra de Linhares Barbosa sobre uma melodia popular conhecida como Fado da Mouraria. Esta letra tem um excepcional jogo de auto-referências. Logo na primeira estrofe, uma obra-prima tanto de romantismo exacerbado quanto de ironia a este mesmo romantismo, em quatro versos que praticamente explicam a essência do fado, a se alimentar do sofrimento por amor e devolvê-lo em música:
Zanguei-me com meu amor – Dulce Pontes (Dulce não canta a terceira estrofe)
Dulce, assim como no Novo fado da Severa, não canta todas as estrofes da canção, o que também lhe rendeu críticas. Neste caso, talvez seu motivo tenha sido a negação do canto nos versos quem perde o amor na vida jamais devia cantar. O que absolve Dulce de uma possível adulteração do fado é um carinho patente em sua voz e na interpretação destas canções, carinho que é pelo homem amado, pelas ruas e bairros onde o homem pisa e o fado acontece, e finalmente se estende ao próprio fado, pela própria canção que ela interpreta. Na voz de Dulce, acontece, como já acontecera na de Amália e tantas outras, novamente a conciliação do amor pelo cigano citado no Novo fado da Severa – cigano sendo o que não se fixa nem no território nem no amor. Conciliação que ocorre também nos versos finais de Zanguei-me com meu amor,
Este post é dedicado a Valéria Affonso, que me apresentou ao fado.
E esta visão de exotismo se torna ainda mais estranha ao se saber que o fado, assim como o choro e o samba, tem sua origem nos mesmíssimos formatos musicais, a modinha e o lundu. Embora haja também uma clara influência moura no fado, não há nenhum registro deste estilo antes do século XIX. Outro ponto em comum é o fato de fado e samba terem sido ritmos ligados à marginalidade. Cantoras de fado em geral eram prostitutas, e isto se reflete nas letras de muitos fados clássicos, cantados do ponto de vista feminino e falando de amores bandidos – aliás, as referências aos homens amados e infiéis como ciganos são outra ligação com este submundo, uma vez que os ciganos, como os mouros (com diferenças históricas importantes, claro), sempre foram considerados um povo intruso e mal vistos pela população.
Mas discutir as origens do fado é tarefa para estudiosos com bem mais estofo que eu. Limito-me agora a indicar o excelente Blog da Severa (Maria Severa, tida como a primeira cantora de fado), onde as tradições do estilo são esmiuçadas, e o Museu do Fado (aqui a ótima página que conta sua história). Do que eu trato aqui são das possibilidades do fado como estilo de canção, e são imensas justamente no lidar com esta tradição.
Ai, Mouraria – Amália Rodrigues (letra aqui)
Antes de tudo, uma explicação: a Mouraria é o antigo bairro mouro de Lisboa (sim, mouros e cristãos conviveram em relativa harmonia durante séculos na Península Ibérica, explicam os historiadores hoje). Havia também a Judiaria, que hoje não existe mais, assim como a Mouraria é hoje um bairro aberto a todo credo - tanto que há nele a Rua do Capelão. E na Rua do Capelão há o Largo da Severa, em homenagem à fadista que viveu ali. Assim, a Mouraria tem uma relação, digamos, geográfica, com o surgimento do fado, para além de questões de estilo – que também as há.
Ai, Mouraria é um clássico do fado, gravada por quase todo fadista que se preze. É uma canção delicada, com uma parte em tom maior e outra em tom menor – e aí cabe notar que a primeira parte, em tom menor, é inteiramente dedicada à lembrança do amado que se foi, e a segunda, em tom maior, é toda voltada a relembrar o território, o bairro, as ruas. Existe como que uma territorialização do sentimento, uma ligação profunda com o lugar, mas que aqui aparece dividida, como se o espaço físico servisse de consolo para a ausência da pessoa, uma identificação quase completa entre eles. Quase, porque permanecem um em cada tom, um em cada estrofe.
Amália, claro, segue o instrumental ritmicamente homogêneo e cadenciado que é tradicional, e sobre esta cama de cordas dedilhadas sua voz não se derrama, mas se contém. O canto do fado é de um imenso sofrimento que não se abre, que é cheio de subentendidos na voz que se desdobra em melismas, mas permanece digna, como digna é a figura da cantora, herdeira das prostitutas de bares e cafés, mas de xale negro e uma rosa ao cabelo, a rosa chamando à vida, o xale lembrando um luto que nunca termina. As quase paradas da música são como tentativas de a interpretação escapar e se derramar, mas logo reprimidas. Uma dor cotidiana.
Corta para Dulce Pontes cantando o Novo fado da Severa (letra aqui - Dulce não canta a segunda estrofe)
O Fado da Severa original é de 1848, de autoria de Sousa do Casacão, e refere-se à própria Maria Severa, que falecera um ano antes (veja a letra aqui). Este é de Júlio Dantas e Frederico de Freitas e já se refere ao lugar, ao Largo da Severa, na Rua do Capelão, na Mouraria (outra vez a passagem de pessoa a território). Júlio foi o autor, em 1901, do romance A Severa, que em 1931 tornou-se o primeiro filme falado de Portugal, com esta canção na trilha sonora. Outra dificuldade da conciliação surge nos versos finais, que expressam um desejo supremo: Viver abraçada ao fado, morrer abraçada a ti. Ou o fado, ou o homem amado, nunca na vida os dois juntos, sempre uma falta, uma ausência.
A interpretação de Dulce Pontes é a explicitação do implícito no fado. As gravações dela foram acompanhadas de muito sucesso e um bocado de polêmica, por ela escancarar em sua interpretação o sofrimento contido de Amália, mais até do que por seus arranjos pop. Mesmo havendo uma marcação rítmica, ela se permite adiantar ou estender as frases à vontade, ad libitum, derramar completamente a voz. Para isso também contribui a diminuição sensível do andamento em relação ao fado tradicional. Por outro lado, isto permite a ela exacerbar uma característica que já é da interpretação do fado – e que é um dos indícios da ligação do fado à influência moura: os abundantes ornamentos vocais, arabescos, sem os quais as melodias do fado se tornam quase irreconhecíveis, a ponto de se poder afirmar que eles fazem parte da própria estrutura das canções.
Voltemos para Amália, cantando Zanguei-me com meu amor (letra aqui)
Zanguei-me tem letra de Linhares Barbosa sobre uma melodia popular conhecida como Fado da Mouraria. Esta letra tem um excepcional jogo de auto-referências. Logo na primeira estrofe, uma obra-prima tanto de romantismo exacerbado quanto de ironia a este mesmo romantismo, em quatro versos que praticamente explicam a essência do fado, a se alimentar do sofrimento por amor e devolvê-lo em música:
Zanguei-me com meu amorA metalinguagem explícita (o Fado da Mouraria é a própria canção que conta esta história) envolve um pouco de humor, criando uma espécie de paradoxo temporal: como a fadista pode cantar uma canção que cita o fato de ela ter cantado antes esta mesma canção? Mas mais bem humorado ainda é o reconhecimento quase agradecido da dor de cotovelo como o motor do fado, um desdobramento dos versos do Novo fado da Severa, que citei acima: feliz no fado, infeliz no amor . O humor segue na estrofe seguinte,
Não o vi em todo dia
À noite cantei melhor
O fado da mouraria
O sopro duma saudadeem que o lidar com este sofrimento torna-se, por assim dizer, algo cultivado, voluntário, uma estranha forma de vida, para citar outro clássico do fado também gravado por Dulce Pontes, como este, e inclusive passível de ser interrompido… ainda que temporariamente.
Vinha beijar-me, ora, ora
Pra ficar mais à vontade
Mandei a saudade embora
Zanguei-me com meu amor – Dulce Pontes (Dulce não canta a terceira estrofe)
Dulce, assim como no Novo fado da Severa, não canta todas as estrofes da canção, o que também lhe rendeu críticas. Neste caso, talvez seu motivo tenha sido a negação do canto nos versos quem perde o amor na vida jamais devia cantar. O que absolve Dulce de uma possível adulteração do fado é um carinho patente em sua voz e na interpretação destas canções, carinho que é pelo homem amado, pelas ruas e bairros onde o homem pisa e o fado acontece, e finalmente se estende ao próprio fado, pela própria canção que ela interpreta. Na voz de Dulce, acontece, como já acontecera na de Amália e tantas outras, novamente a conciliação do amor pelo cigano citado no Novo fado da Severa – cigano sendo o que não se fixa nem no território nem no amor. Conciliação que ocorre também nos versos finais de Zanguei-me com meu amor,
Quando regressou ao ninhoonde o cigano adorado volta, enfim, para casa, talvez subindo a Rua do Capelão, passando pelo Largo da Severa, em plena Mouraria, dos rouxinóis nos beirais, dos vestidos cor-de rosa, dos pregões tradicionais (da letra de Ai, Mouraria), e assoviando o fado que lhe conta a história. Onde o amor tripartite, cujas partes alimentam umas às outras, se unifica: pelo homem eleito, de variados nomes; pelo lugar, território, torrão; pelo fado.
Ele que mal assovia
Vinha a assoviar baixinho
O fado da Mouraria
Este post é dedicado a Valéria Affonso, que me apresentou ao fado.
Buceta gulosa da minha amada

A buceta da minha amada
tem pêlos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.
A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.
A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.
A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.
A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.
tem pêlos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.
A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.
A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambda.
A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.
A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.
Bráulio Tavares
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Assinar:
Postagens (Atom)


























































