terça-feira, 20 de março de 2012

Semana Carlos Drummond de Andrade



A moça mostrava a coxa


A moça mostrava a coxa,
a moça mostrava a nádega,
só não mostrava aquilo
- concha, berilo, esmeralda -
que se entreabre, quatrifólio,
e encerrra o gozo mais lauto,
aquela zona hiperbórea,
misto de mel e de asfalto,
porta hermética nos gonzos
de zonzos sentidos presos,
ara sem sangue de ofícios,
                          a moça não me mostrava.
                          


E torturando-me, e virgem
no desvairado recato
que sucedia de chofre
á visão dos seios claros,
qua pulcra rosa preta
como que se enovelava,
crespa, intata, inacessível,
abre-que-fecha-que-foge,
e a fêmea, rindo, negava
o que eu tanto lhe pedia,
o que devia ser dado
e mais que dado, comido.


Ai, que a moça me matava
tornando-me assim a vida
esperança consumida
no que, sombrio, faiscava.


Roçava-lhe a perna. Os dedos
descobriam-lhe segredos
lentos, curvos, animais,
porém o maximo arcano,
o todo esquivo, noturno,
a tríplice chave de urna,
essa a louca sonegava,
não me daria nem nada.
Antes nunca me acenasse.


Viver não tinha propósito,
andar perdera o sentido,
o tempo não desatava
nem vinha a morte render-me
ao luzir da estrela-dalva,
que nessa hora já primeira,
violento, subia o enjoo
de fera presa no Zôo.


Como lhe sabia a pele,
em seu côncavo e convexo,
em seu poro, em seu dourado
pêlo de ventre! mas sexo
era segredo de Estado.

Como a carne lhe sabia
a campo frio, orvalhado,
onde uma cobra desperta
vai traçando seu desenho
num frêmito, lado a lado!


Mas que perfume teria
a gruta invisa? que visgo,
que estreitura, que doçume,
que linha prístina, pura,
me chamava, me fugia?


Tudo a bela me ofertava,
e que eu beijasse ou mordesse,
fizesse sangue: fazia.

Mas seu púbis recusava.
Na noite acesa, no dia,
sua coxa se cerrava.
Na praia, na ventania,
quando mais eu insistia,
sua coxa se apertava.
Na mais erma hospedaria
fechada por dentro a aldrava,
sua coxa se selava,
se encerrava, se salvava,
e quem disse que eu podia
fazer dela minha escrava?


De tanto esperar, porfia
sem vislumbre de vitória,
já seu corpo se delia,
já se empana sua glória,
já sou diverso daquele
que por dentro se rasgava,
e não sei agora ao certo
se minha sede mais brava
era nela que pousava.

Outras fontes, outras fomes,
outros flancos: vasto mundo,
e o esquecimento no fundo.
Talvez que a moça hoje em dia...
Talvez. O certo é que nunca.
E se tanto se furtara
com tais fugas e arabescos
e tão surda teimosia,
por que hoje se abriria?
Por que viria ofertar-me
quando a noite já vai fria,
sua nívea rosa preta
nunca por mim visitada,
inacessível naveta?
Ou nem teria naveta...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Semana Carlos Drummond de Andrade



A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.

O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.

Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.

A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.


Pessoal, dedicarei nesta semana de comemoração dos 110 anos do nascimento do grande poeta mineiro, postarei todos os dias poesias com belíssimas ilustrações, estas minhas.


Madonna


"O sorriso é o caminho mais curto entre duas pessoas." (Victor Borge)




Comissão da Verdade

Cuidado com o vicio




Valdemiro Santiago, um apóstolo milionário

Líder da Igreja Mundial do Poder de Deus usa dinheiro dos fiéis para enriquecimento próprio

Saiba com exclusividade como o dirigente evangélico Valdemiro Santiago desvia dinheiro doado pelos fiéis para enriquecimento pessoal. Documentos obtidos pelo Domingo Espetacular, da Rede Record, comprovam que o apóstolo comprou várias fazendas no Pantanal (MT) com dinheiro da igreja. São terras de perder de vista e milhares de cabeças de gado, pista de pouso e mansão com piscina.

São fazendas riquíssimas encravadas no coração do Pantanal. Elas foram compradas com dinheiro dos fiéis da Igreja Mundial do Poder de Deus. O dono delas é o homem que se intitula apóstolo e presidente da igreja.

Segundo a Justiça, a Igreja Mundial tem dezenas de templos ameaçados de fechar por ordens de despejo. Ao mesmo tempo, o apóstolo Santiago fica cada vez mais rico.

Foi no município de Santo Antônio de Leverger, em Mato Grosso, que o apóstolo Valdemiro virou dono de várias fazendas, uma ao lado da outra. Juntas, elas formam uma imensa propriedade, de dar inveja aos homens mais ricos do país. São mais de 26 mil hectares, o equivalente a 13,4 mil estádios do Maracanã.

Somando tudo, gado, terras e benfeitorias, o investimento total de Valdemiro chega a R$ 50 milhões em dinheiro vivo, mais do que a maioria dos prêmios da Mega-Sena acumulada. O valor é suficiente para comprar 20 Ferraris 0 km, o carro mais caro do Brasil, ou dez coberturas em Nova York (EUA), a cidade mais cara do mundo.

Assista ao vídeo:


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sexta-feira, 16 de março de 2012

Linda música

Ruptura



Breakthrough
(Wright, Moore)

I can take or leave it, won't be the woebegone
Don't need a model universe to hang your pictures on.
You hide somewhere, you die somewhere
And then this senseless thought,
By hating more you're feeling more
And that's how you get caught.

They're never going to make it easy
Of this you can be sure.
I greet you from the wilderness,
I'll stay inside your door.

There's no cage or prison, they have no fence too tall,
You die more times that anyone, there's still no place to fall.
They're never going to keep it simple
This comes down from above.

I have no helm, no secret realm,
I dream to be at the heart of love, a part of love.
I bet you can conceal it, but that's just a dead-end track,
I'll cover you like the driven snow and then I'll bring you back.

You'll see ! you feel like, you feel like a banner,
Unfurled and gently blown,
And there before your opening eyes
The self you've never known.
They're never going to make it easy
Of this you can be sure.
You feel untied, beatified
And loved for evermore


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Americanas - Mulheres de peito































não tenho nada contra, mas prefiro os médios...

quinta-feira, 15 de março de 2012

O trem das 7 - Raul Seixas - Clip Original

Gospel - A música censurada de Raul Seixas

Diana Krall - Este seu Olhar




                 com um forte sotaque, mas vale a pena ouvir...

Cazuza - Um grande poeta da MPB

Discoteca Brasílica – Brasil

Brasil, de Cazuza com George Israel e Nilo Romero, gravada por ele no álbum Ideologia, de 1988, é um samba! – ou melhor, é a intromissão do samba no rock, com a inversão da batida do bumbo, do tempo forte para o fraco. Não é a primeira vez que isso acontece – Vida Bandida, de Lobão, e antes disso Blitz e Rita Lee já tinham feito coisas semelhantes. Mas o fato de ser um samba já é um bom motivo para pensar – o porque do roqueiro Cazuza ter recorrido a ele quando decidiu tratar diretamente de seu país e suas mazelas. Mesmo para um roqueiro, Brasil e samba são sinônimos? Ou, sendo uma letra crítica, Cazuza insere nela também uma crítica à carnavalização dos problemas?
Brasil – com Cazuza (a montagem de imagens com mensagens políticas é do autor do vídeo)


Brasil é um retrato interessantíssimo e duplo de um artista e seu país passando por momentos semelhantes. Cazuza havia chegado dos EUA, onde tivera as primeiras crises de saúde resultantes do fato de ser soropositivo para AIDS, e passava por uma crise pessoal que ele narra abertamente na canção-título deste álbum. O país viva os primeiros anos depois da redemocratização, ao mesmo tempo que vivia os rescaldos econômicos e sociais da ditadura. Em ambos os casos, percebia-se na prática que o mundo não era exatamente como se acreditava. A identificação entre estes dois momentos transformou Brasil em um grande sucesso. Cazuza expõe seus questionamentos sem apresentar respostas, e sim partilhando sua busca.
Isto não impede – ou talvez seja por isso mesmo – que uma certa ingenuidade transpareça na canção, fruto da inexperiência diversas de ambos, artista e país. O eu lírico da canção é um guardador de carros na porta de uma festa luxuosa, papel de difícil verossimilhança para Cazuza. Filho de pais ricos, inclusive o presidente da gravadora que o lançou, farrista emérito nas noitadas do Baixo Leblon e em todo tipo de excesso (o que, aliás, explica ao menos em parte o incrível fim da primeira estrofe, em que ele compara as decepções do país com a compra de droga adulterada!), Cazuza tinha, sim, a tremenda sensibilidade e capacidade de empatia profunda com os sofredores – seus biógrafos dizem que era capaz de confraternizar com mendigos e de uma generosidade ímpar. Porém, coisa diferente é transformar estas generosidade e empatia em um discurso político minimamente organizado. A consciência política de Cazuza, se um dia fora articulada, passava então por um momento de desarticulação – e talvez este fosse um mérito, pois lhe dava a liberdade de criador. No entanto, ao abordar o assunto em suas canções, Cazuza tende a resvalar para o populismo em alguns momentos.
É claro de confrontar a vida particular do artista com sua obra é perigoso e pode ser simplesmente moralista. Mas, no caso de Cazuza, é impossível dissociar artista e obra. Se o início de Brasil é baseado nesta identificação com o guardador de carros, o despossuído como o povo brasileiro, logo ele próprio vai abandonando o personagem para, nos últimos versos, deixá-lo de lado inteiramente, em parte também pela generalização do discurso (inclusive incluindo o índio como outro símbolo dos despossuídos, do povo). É impossível não enxergar aqui, mesmo que involuntariamente, um viés demagógico que torna esta identificação algo artificial. Mais tarde, o próprio Cazuza explicitaria e radicalizaria este discurso em Burguesia:
A burguesia fede
A burguesia quer ficar rica
Enquanto houver burguesia
Não vai haver poesia
E logo depois, Cazuza, oriundo e integrante desta mesma burquesia, como que tenta se desculpar: eu sou burguês, mas eu sou artista / estou do lado do povo! A autodefesa soa canhestra ao lançar mão de uma frase feita que foi usada por todos os políticos populistas brasileiros, representantes de oligarquias ou não, de direita e de esquerda, de Getúlio a Lula. Em Brasil, na parte C, ocorre contradição análoga: grande pátria desimportante / em nenhum instante eu vou te trair! Desta vez, a frase populista chegaria a soar piegas se não viesse após um verso inspirado que resume a simpatia e o carinho de Cazuza pela pátria, soando sincero justamente por admitir sua condição algo contraditória. Há uma busca escancarada, em que se toma determinados atalhos para logo depois recuar, como quem exatamente quer uma ideologia para viver.
Mas então pode parecer que Brasil é um grande erro, uma sucessão de passos em falso, uma coleção de discursos ruins. Nada disso. Ao contrário de Burguesia, em que há uma direção definida (e no entanto deve ser lida com ressalvas, dadas as condições extremas em que todo o último álbum de Cazuza foi feito), Brasil em suas contradições internas retrata exatamente um momento de nação, e é isto que a torna forte. E é seu forte refrão que consegue amarrar as pontas soltas, ao se dirigir diretamente ao país como uma espécie de mistério, tomá-lo como seu interlocutor e externar suas dúvidas. Para terminar com um apelo inesperado: Brasil, confia em mim! A inversão surpreendente – em vez de, patrioticamente como nos hinos de louvor à ditadura, pedir para que confiem na pátria, Cazuza pede que ela confie nele – sintetiza um momento histórico de autodescobrimento do país que, não é favor dizer, se prolonga até hoje.
Mas ainda houve um acontecimento na trajetória desta canção que merece uma análise mais detida:
Brasil – com Gal Costa


Brasil foi regravada por Gal Costa especialmente para se tornar o tema de abertura da novela das 8 Vale Tudo, da Rede Globo, o que tornou a canção duplamente metalingística: primeiro pelo fato de a novela se propor a debater ética ao investigar, segundo seu autor Gilberto Braga, até que ponto valia ser honesto no Brasil; e segundo pelos versos finais antes da repetição do refrão: ver TV a cores na taba de um índio / programada pra só dizer sim, uma crítica direta ao poder dos meios de comunicação de massa no Brasil, TV em particular, em contraste com uma realidade simbolizada pelo índio na taba, de múltiplas significações, desde a mais simplória no sentido de uma manupulação da população indefesa até um contraste em que a globalização e o projeto de integração nacional da ditadura são confrontados com a população e sua(s) culturas variadas particularíssimas, o encontro de um Brasil ultramoderno e um arcaico (e agora lembrei do fabuloso filme Bye bye Brasil).
Há duas questões aqui. A primeira é que, Se Cazuza assume a voz do guardador de carros, Gal assume a do Cazuza assumindo a do guardador (pois sua gravação é inequivocamente referencial à anterior, com os metais repetindo os solos de guitarra originais). Ou seja, o que já era algo que parecia forçado agora se torna simulacro – que não não é de todo impróprio, em se tratando justamente da abertura de uma novela. Em compensação, a interpretação de Gal é vigorosa e sustenta a canção, não fosse ela a intérprete que é.
Entretanto, a diferença fundamental entre as duas vem do fato de a abertura da novela escancarar o samba que na versão de Cazuza surgia insidioso no meio da levada da bateria. A transformação de Brasil num samba inequívoco – e mais, um sambão de escola de samba, com direito a repiques de tamborim e roncos de cuíca, mas com uma certa estilização que soa um pouco como uma demonstração para turistas – permite entender um pouco das escolhas que Cazuza faz em sua gravação, ao escolher o samba, mas apenas pouco mais que sugeri-lo no arranjo. Já na versão de Gal – e esta impressão é reforçada ao lembrarmos da imagem forjada por ela em álbuns como Gal Tropical e canções do repertório de Carmen Miranda (obviamente, o buraco é mais embaixo, esta impressão é meramente superficial. Mas lembremos que estamos falando de uma abertura de novela) – ao mesmo tempo que é mantida a força interpretativa, ocorre também como que uma tropicalização da canção – que pode ser entendido no sentido raso de uma mera diluição do conteúdo, ou no sentido relativo ao movimento tropicalista, carregando em si toda a discussão da relação com os meios de comunicação de massa realizada por este movimento.
E então a conversão desta canção de protesto da geração 80, a geração perdida cantada por Renato Russo, em uma abertura de novela com escola de samba, acaba sendo a realização de uma profecia involuntária de Cazuza, feita na mesma canção, ou ao atendimento de uma parte de seu apelo. Pois ao enfatizar até a obviedade as características de Brasil, acaba-se por, pelo avesso, enfatizar também o processo de diluição que isto comporta, fazando o truque vir à tona, e devolvendo ironicamente o valor e o interesse à gravação de Gal, já agora carregada destas leituras sobre leituras a partir da gravação referencial de Cazuza. Mas, ao contrário do que se poderia supor, ao se acrescentar máscaras sobre máscaras à canção, ocorre o contrário de um mascaramento: é quando, ao tentar transformar Brasil num simulacro, o Brasil mostra sua cara. E, ao vermos uma parte dela que seja, (e ao menos há o consolo de conseguir energá-la) temos a impressão de que, infelizmente, ainda falta muito para que ele confie em nós

garimpado do blog Tulio Villaça