sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um sampler, mil cidades, 40 graus

 

A verve de Fausto Fawcett tornou-se conhecida nacionalmente em 1987, com o estouro de Kátia Flávia, a Godiva de Irajá, possivelmente o primeiro rap a fazer sucesso radiofônico no Brasil. Então, em 1992, Fernanda Abreu o levou de volta às rádios em seu segundo álbum solo, Sla II be sample, com Rio 40 graus, dela, de Fausto e Carlos Laufer.
Sla II be sample, sem chegar a ser um álbum conceitual, ainda assim é construído sobre um conceito, derivado do uso de um instrumento novo à época: o sampler. Hoje é possível fazer tudo o que um sampler fazia há 20 anos e muito mais, com praticamente qualquer computador. Á época, no entanto, a possibilidade de tomar um trecho de uma gravação, isolar determinado instrumento, criar loopings ou inserir trechos em outras gravações, abriam um mundo de possibilidades sonoras. Sla II explora este universo, mas sua grande sacada é extrapolar estas possibilidades da música para outros terrenos: samplear linguagem, samplear conceitos. E Rio 40 Graus é o ponto máximo desta exploração. Fala Fausto Fawcett no release do álbum:
No primeiro disco, (Sla Radical Dance Disco Club) o sampler teve um papel importantíssimo na confecção do clima das músicas. No segundo, virou vedete total, apêndice constante de todas as guitarras, baixos, concepções rítmicas, etc. O sampler é um gravador-sintetizador, que captura, acumula e serve para distorcer, deslocar qualquer pedaço de som ou de música, além de permitir a criação de músicas calcadas em sequências de fragmentação.
Máquina de reinventar, remanejar, recriar sons. Máquina que permite a criação de músicas a partir de outras músicas. Também pode transformar fragmentos sonoros e musicais em fantasmas sonoplásticos rasantes, interferindo em outras músicas. O homem é sampler orgânico. O cérebro é sampler-víscera-mor. More sampler. O corpo é sampler? É divertido imaginar as pessoas como máquinas de vísceras inquietações estimuladas por influências de promíscuas inter-relações com as substâncias do mundo. Máquinas de vísceras, inquietações de nervos transpassados por magnetismos provocados por eletricidade provocada pelo sangue provocado pelos sensores provocados por impressões exteriores e subjetivas manifestações, provocando vísceras inquietações… Os homens são máquinas que inventam outras máquinas, próteses, instrumentos que são extensões, exteriorizações, materializações de processos orgânicos, mentais, corporais que ampliam sua capacidade de influenciar o mundo. Cada máquina é uma espécie de espelho onde os humanos observam o funcionamento, a caricatura mecânica e cibermética de seus processos orgânicos. Máquinas são alívios. O sampler, assim como outras máquinas, é a caricatura cibernética do processo cerebral-metal. Milhões de fragmentos da realidade entram incessantemente no cérebro como curto-circuito de estalos eletromagnéticos de percepção que se chocam, gerando combinações e recombinações de realidade transmutada. A realidade dentro do cérebro vira veloz labirinto de mosaicos mutantes. O mundo, enquanto quintal da atividade humana, é um labirinto de mosaicos mutantes. O sampler pega todas as formas de vida musical e sonora e nos permite criar labirínticos mosaicos de sonoridades mutantes.
Antes mesmo do sampler mental de Fausto Fawcett disparar sua metralhadora musical, uma sequência de canções dentro da canção não se limita a criar uma ambiência ou a servir de introdução, mas já inicia uma construção de intertextualidades intrometendo-se em meio às estrofes: no repertório dos Novos Baianos (a introdução de Com qualquer dois mil réis), Clementina de Jesus (Pergunte ao João), Giberto Gil (introdução deExpresso 2222, Aquele Abraço) Caetano (Soy loco por ti América), Moreira da Silva (Na subida do Morro), vão sucedendo retratos de ser carioca que dialogam com a canção propriamente dita, sendo vários deles curiosamente feitos por baianos – volto a este ponto adiante.
Mas é na letra de Rio 40 graus, em sua poética, sua sintaxe, mixagem lingúistica na emenda desenfreada de palavras que embaralham conceitos, que a estética do sampler vai se mostrar mais profícua. Metralhadora musical. Letra que já se anuncia dando o mote para o que virá: O Rio é uma cidade de cidades misturadas – incluindo a beleza e o caos, cuja indistinção será explorada ao longo de toda a música. O próprio título da canção é sampleado do filme homônimo de Nelson Pereira dos Santos. A partir daí, duas técnicas de estruturação de texto são usadas, no fundo sendo a segunda uma radicalização da primeira:
1- Substituição – o verso Comando de comando submundo vai sendo terminado por palavras diferentes a cada vez, criando um efeito ao mesmo tempo hipnótico pela repetição e de estranhamento pelo desenvolvimento, estendendo a noção de submundo da bandidagem aos filhinhos. A mesma técnica e usada duas vezes mais adiante, completando o verso cachorrada doentia com diversos nomes de bairros cariocas, mas agora com efeito diverso, similar à lista de bairros de Kátia Flávia, incluindo bairros de diversas partes da cidade, e na marcação invocação pra gritaria de torcida da galeracom terminações samba, funk e tiroteio, temas e rítmos que separam e unem a cidade. Cidade retratada por inteiro, em todos os seus submundos, submáfias, subcidades;
2- Fusão – naquilo que é o clímax da canção, a mixagem entre dois temas – equipamento musical e armamento – vem num galope alucinado em que adjetivos de um são usados no outro, tornados indistintos, confundindo e equiparando as duas coisas. A batucada metralha, a sub-usi tem cartucho musical. A identificação absoluta entre estética e ética, entre representação e realidade. A problematização desta indistinção entre dois universos, que levaram, por exemplo, o funk a ser criminalizado e o crime a ser glamurizado por muito tempo, está no cerne da crônica carioca de Fausto.
A substituição contínua e a fusão de diferentes: Rio 40 graus isto ocorre concomitantemente em termos sonoros, linguísticos e conceituais. A velocidade estonteante da recitação da letra verborrágica tem um efeito hipnótico e anestesiante que leva à a uma invertida e irônica celebração de uma purgação: purgatório da beleza e do caos. Fausto e Fernanda fazem um desvelamento parcial, mas recusam-se a uma simplificação. Independente disto, o diagnóstico é preciso e extremamente atual:
O Rio é uma cidade
De cidades camufladas
Com governos misturados
Camuflados, paralelos
Sorrateiros
Ocultando comandos…
Numa época em que, não apenas no Rio de Janeiro, organizações criminosas se formam a partir de instituições e se infiltram em instituições (o Filme Tropa de Elite IIretrata exatamente as milícias se originando do seio da polícia e estendendo tentáculos na política – e o atual prefeito é justamente acusado de conivência tanto com milícias quanto com empreiteiras e de subornar outros partidos, o que leva o blog a declarar voto para prefeito no dia 7 de outubro em Marcelo Freixo, retratado no filme), estes versos soam como se tivessem sido compostos ontem.
Mas outros versos, ainda que de forma mais geral, talvez vão até mais fundo na questão:
Quem é dono desse bêco?
Quem é dono dessa rua?
De quem é esse edifício?
De quem é esse lugar?
É meu esse lugar / Sou carioca
Eu quero meu crachá!
Sou carioca, pô!
A praça é do povo como o céu é do condor, cantava Castro Alves. Em tempos que também são de ocupação de praças e ruas, da Praça Tahir a Wall Street, a lembrança de que a cidade pertence a seus habitantes é de uma obviedade que se oculta a cada dia. Alguns anos depois, Fernanda Abreu regravou Rio 40 graus com Chico Science e Nação Zumbi.
O estranhamento de ouvir o pernambucano Chico Science, ligado umbilicalmente à capital de Pernambuco, transplantar a batucada Mangue Beat para o rap de Fernanda, ex-integrante do mais carioca dos conjuntos de rock, a Blitz, e exclamar convictamente:sou carioca! logo é sucedido pela constatação da frase um dia dita por João Gilberto: O Rio é a cidade de todos os brasileiros. Caetano Veloso conta de amigos de Santo Amaro da Purificação, em sua infância, que pelos jornais, rádio e TV, novelas e canções conheciam o Rio de Janeiro tão bem como os arredores de suas casas, sem nunca terem pisado lá. O Rio de Janeiro assume na poesia de Fausto Fawcett um cosmopolitismo que não deixa de ser extremamente brasileiro. Não à toa os Gil, Caetano e Novos baianos, radicados no Rio, tem suas canções sampleadas, muitas delas louvando explicitamente o Rio, a carioquice, um jeito de fruir a cidade, de vivenciá-la. Microcosmo do país, Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil, o Rio aponta direções possíveis, espelha mazelas, às vezes é vanguarda, às vezes se perde em suas contradições.
No fundo, Rio 40 graus é simplesmente uma canção de amor, amor carinhoso e bandido, dos que dão dor e prazer ao mesmo tempo. Fausto afirma ser um pessimista festivo. Mas esta também é uma canção de quem acredita que deste mato sai coelho, que deste amálgama, desta maravilha mutante de samplers de influências do Brasil e do mundo pode sair algo original, inesperado, algo de bom, que pode vir a iluminar de volta o Brasil e o mundo. Como já fez e faz cotidianamente, aliás, sem que nos demos conta, e é isto que Rio 40 graus vem também apontar. Uma canção de amor apaixonado e doentio, para o bem e para o mal. Na saúde e na doença. Na beleza e no caos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

MPB e violência, por Francisco Bosco

MPB e violência, por Francisco Bosco

Em sua coluna desta semana no jornal O Globo, o compositor e ensaísta, entre outras coisas, Francisco Bosco levou avante de um modo surpreendente para mim a discussão sobre a MPB cujo último lance foi o debate entre Rômulo Fróes e Walter Garcia, de que tratei aqui no blog (e particularmente a confrontação entre as canções Ode aos Ratos, de Chico Buarque e Edu Lobo, e Tô ouvindo alguém me chamar, dos Racionais MCs). Francisco toca num ponto sensível e basilar, o suposto consenso de classes promovido pelo modelo de MPB forjado nos anos 1960 e que agora vai se desvanecendo, para alguns, ou reconfigurando, para outros, mas que, de qualquer forma, precisa ter sua real amplitude avaliada e entendida como parte de um contexto que vai muito além do musical. Eis aí.
————————————————————————————————————————————————————————————————————————————————————
Conforme noticiado pela imprensa, há duas semanas o ator Marcelo Faria agrediu com uma garrafada na testa o segurança de uma casa de shows no Rio de Janeiro porque foi impedido de entrar na área reservada às pessoas que compraram ingressos de mesa, segundo nota oficial emitida pela casa de espetáculos. Uma testemunha depôs a favor do segurança, responsabilizando o ator pela agressão, dizendo ter visto o ator provocar, ofender e finalmente tentar invadir o espaço guardado pelo segurança, que permaneceu tranquilo e no estrito cumprimento de seu dever até ser abalroado pelo agressor. A agressão ocorreu durante o show de um compositor jovem, da Zona Sul do Rio (nota do Túlio: era o cantor Rogê), que teve participação de sambistas como Arlindo Cruz e Wilson das Neves. Pois bem, a tal testemunha sou eu mas não quero tratar aqui do que esse caso tem de particular (o que agora será feito pela Justiça), mas sim do que tem de geral. Ele permite compreender em boa parte por que se fala de uma crise da música popular brasileira e mesmo de um suposto fim da canção.
A canção popular brasileira se consolida nos anos 1930, com a geração de Noel Rosa, Dorival Caymmi, Ary Barroso, entre outros. É o momento em que o samba passa de atividade de vagabundos para símbolo da cultura nacional. É o momento em que Gilberto Freyre publica o clássico Casa-grande & senzala, que mudou inteiramente a interpretação da formação do país. O samba é, tanto da perspectiva formal quanto da social, o resultado de mestiçagens. Formalmente, combina a rítmica de origem africana, baseada na síncope (ou na contrametricidade, para evitarmos o etnocentrismo do termo síncope), à tradição melódica e harmônica da música europeia. Socialmente, foi se formando e consolidando por meio dos encontros entre sujeitos da classe média e das favelas;brancos,mulatos e pretos; intelectuais e iletrados. Noel Rosa é o maior representante inicial dessa mestiçagem formal e social. O poeta da Vila, ex-estudante do colégio São Bento, trocou a faculdade de Medicina pela companhia dos pretos do Estácio e fundiu a rítmica e o tema da malandragem a letras de alta intensidade poética, à altura do modernismo então em voga nas artes.
Décadas mais tarde, o que se chamaria de MPB é uma radicalização dessas mestiçagens. A bossa nova tomaria a tradição do samba como base para a modernização da canção brasileira.A geração dosanos 1960 foi feita de universitários, na maioria brancos (ou brancos simbólicos), que aprofundavam relações a um tempo com o Brasil popular e com o que havia de mais contemporâneo no mundo. O que se chama de MPB é portanto essa música que se tornou símbolo da cultura brasileira e que simboliza justamente uma ideia ou ideologia de conciliação entre as classes e raças.Quando se fala no fim da canção, é também e talvez principalmente a crença nessa ideologia que está em jogo. Por quê?
Voltemos ao show e à agressão do ator. Como eu disse, o show era de um cantor de classe média, branco simbólico, da Zona Sul. O público tinha majoritariamente as mesmas características (eu inclusive). O que acontecia no palco era a celebração, musical e social, da conciliação de classes e raças. Mas o que aconteceu na plateia era o desmentido ou ao menos a brutal relativização desse acontecimento. Pois a agressão não foi um caso isolado. Não foi nem mesmo uma briga de homem contra homem, e sim de rico contra pobre, famoso contra anônimo, privilegiado contra desfavorecido. Não acredito que o agressor tivesse a coragem de fazer o mesmo na Zona Norte, em um contexto onde não se sentisse protegido pelos membros da própria classe. Com efeito, ninguém mais testemunhou contra o ator, embora dezenas de pessoas tenham visto a agressão.
Pois bem, para que aquele acontecimento musical pudesse ter valor de verdade social, a agressão deveria ter sofrido um repúdio total e imediato. Isso mostraria ser autêntica a via civilizatória de uma conquista da civilidade e da igualdade por meios graduais e sem traumas. Tal como se deu, o acontecimento desmentiu a promessa da MPB. Eis o resumo da relação da MPB com a realidade social brasileira:umaparte destaa confirma, mas outra a desmente. É precisamente no intervalo entre a promessa formal e os desmentidos reais que surge a canção poderosa e anticordial dos Racionais.
E é também por isso que, na última canção de seu último disco, Chico Buarque abandona a sua característica terceira pessoa para assumir o lugar do herdeiro sarará/ de um feroz senhor de engenho. Como se já não fosse legítimo ocupar o lugar do outro.
Sinhá – Chico Buarque e João Bosco

terça-feira, 24 de julho de 2012

Foto inédita de ex-militante mostra sequelas da tortura na ditadura

 
MATHEUS LEITÃO
RUBENS VALENTE
DE BRASÍLIA

Uma fotografia inédita da ex-militante de esquerda Vera Sílvia Magalhães (1948-2007), tirada em 1970, revela os efeitos da tortura a que foi submetida em um prédio do Exército no Rio de Janeiro.
A foto, obtida pela Folha, está sob a guarda do Arquivo Nacional em Brasília.
Vera, que disse ter sido submetida a tortura durante vários dias, aparece na imagem sem conseguir ficar em pé, tendo que ser amparada pelo também prisioneiro Cid Benjamin.
Então militantes do grupo comunista clandestino MR-8, ambos participaram do sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick em 1969, uma das mais importantes ações urbanas da esquerda armada.
Ditadura usou laudo militar para prender menor de idade
Foto do SNI mostra preso bem de saúde 11 dias antes da morte
Arquivo libera foto que revela lesões a bala em Carlos Lamarca
Fotografias da ditadura são liberadas para consulta
Ditadura destruiu mais de 19 mil documentos secretos

Sequelas da tortura

 Ver em tamanho maior »
Reprodução do Arquivo Nacional/Alan Marques/Folhapress
 
 
 
Reprodução de foto da militante Vera Sílvia Magalhães, que participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em 1969
Vera também participou de assaltos a banco.
"Não tinha visto essa foto. Eu tinha que segurá-la porque, naqueles dias, ela não conseguia se sustentar em pé, devido às torturas", contou Cid à Folha.
Em outra imagem, essa publicada pelos jornais na época, Vera foi fotografada numa cadeira, diferentemente dos demais presos.
As fotografias foram tiradas momentos antes de o grupo ter sido trocado pelo embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben, também sequestrado por esquerdistas.
Do Rio de Janeiro, o grupo seguiu para a Argélia. Parte regressou clandestina ao Brasil, e alguns acabaram mortos pela ditadura militar. No exílio, Vera estudou sociologia na França.
Retornou ao Brasil em 1979, após a aprovação da Lei da Anistia.
Em depoimento prestado à Câmara dos Deputados em 2003, Vera confirmou que as torturas a impediram de ficar em pé pouco antes de ser levada para Argélia. Ela disse que "nunca mais se recuperou fisicamente".
SEXTA-FEIRA SANTA
"Fui a única torturada na Sexta-Feira Santa na Polícia do Exército. E eles me disseram: 'Você vai ser torturada como homem, como Jesus Cristo'", contou Vera.
Ainda no depoimento à Câmara, Vera classificou a tortura que sofreu como "inteiramente desmesurada".
"Para uma mulher, acho que exageraram mesmo. Fiquei cheia de sequelas, cheia de problemas." Vera morreu em 2007, vítima de câncer.
Única mulher a participar do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, Vera foi representada no cinema por duas personagens no filme "O Que É Isso, Companheiro?" (1997), interpretadas pelas atrizes Fernanda Torres e Cláudia Abreu.

Presos políticos na ditadura

 Ver em tamanho maior »
Alan Marques/Folhapress
 
Engenheiro Raul Amaro Nin Ferreira, dias antes de sua morte em 1971

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Buddha Bar - Bliss (Wish you were here)




Queria Que Você Estivesse Aqui
Como as ondas nas praias
Parte do oceano
As estrelas lá no alto
Parte do céu
Agora eu estaria com você
Eu sonho com um rio
Uma água tão azul
Queria poder viver lá
Queria que você estivesse aqui…
Como o ar que eu respiro
Você vai sempre estar lá
As asas que eu preciso
Quando eu quero voar
Agora eu estaria com você
Eu sonho com um rio
Uma água tão azul
Queria poder viver lá
Queria que você estivesse aqui…
Como as ondas nas praias
Parte do oceano
As estrelas lá no alto
Parte do céu
Agora eu estaria com você
Eu sonho com um rio
Uma água tão azul
Queria poder viver lá
Queria que você estivesse aqui…

sexta-feira, 20 de julho de 2012

RACIONAIS MC'S- ESTILO CACHORRO (eQ. Roba Cena)

Sobre o mal-estar na canção

Na edição da revista digital Serrote deste mês, a seção Desentendimento reuniu o musico Rômulo Fróes e o pesquisador Walter Garcia, mediados pelo coordenador da Rádio Batuta do IMS, Paulo da Costa e Silva. O cardápio foram os rumos da canção, e o debate foi quente, me motivando a matutar um bocado mais sobre o assunto que move este blog. Antes de qualquer coisa, aqui está o link para o debate (não é absolutamente necessário ver o debate para entender o artigo a seguir, mas quem não vir vai perder_). Além disso, o compositor Mauro Aguiar publicou uma carta aberta dirigida ao cantor e compositor Sérgio Santos em que comentava e discordava de pontos do debate (a carta está reproduzida no perfil do blog no Facebook). E agora é minha vez de dizer o que ruminei, tentando, se não sistematizar, ao menos ordenar alguns aspectos de uma discussão que não se pretende que termine.
Parto de um detalhe da discussão que considero sintomático da oposição atual entre dois grupos, um considerando o trabalho de músicos novos (representados pelo Rômulo no debate) como algo de realmente novo na música brasileira, e outro que não vê com bons olhos a maioria destes trabalhos, alguns tratando-os como um retrocesso em relação à música feita por gerações anteriores. Neste sentido, Walter fez a comparação entre o álbum Cambaio, de Chico Buarque e Edu Lobo, e Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais Mc’s, centrando o foco, em determinado momento, nestas duas canções, e é daqui que eu parto:
Tô ouvindo alguém me chamar – Racionais Mc’s
Ode aos Ratos – Chico Buarque, de Chico e Edu Lobo
Ode aos ratos não tem o ponto de vista de um bandido. Ele é o ponto de um autor que se assume não sendo bandido nem do meio e se debruça sobre o tema, e a tomada de consciência que vai se fazendo na letra de Tô ouvindo não poderia ser pensada por Chico. Enquanto Mano Brown está no seu território no rap, Chico chega a ele pelo subterfúgio do repente, do baião – ele traça um caminho musical-lógico que justifique ele fazer um rap para falar do bandido, enquanto o Mano vai direto ao ponto, justificado pelo seu meio urbano de nascença e ponto.
E aqui começamos, porque é ao mesmo tempo obrigatório e impossível comparar as duas composições: porque Chico parte de outro ponto para fazer a sua, que é muito anterior. Chico tem seu trabalho, sua canção, forjado no momento pós-bossa nova em que a pesquisa das manifestações culturais brasileiras por parte dos compositores impregnou definitivamente a canção – diferentemente de um Luiz Gonzaga, trazido diretamente do sertão, agora um Edu Lobo emulava a música do sertão trazendo-a para o universo harmônico aberto pela bossa nova, sendo que esta, baseando-se no samba, praticamente o único ritmo urbano de matiz distintamente nacional da primeira metade do século XX, fez também o caminho centrífugo e influenciou ritmos regionais em todo o Brasil. Depois de sua estilização ele se abriu para ritmos diversos, e a classe média engajada foi atrás desta identificação com o povo para estabelecer legitimidade em seu discurso, que era em boa parte voltado para esta mesma classe média, mas não só – é a conciliação de classes de que fala Walter no debate. Temos então Chico representante deste movimento, pois como disse o Tom, até seu fox-trote é brasileiro. Então, resumindo brutalmente, aí está o projeto de canção do Chico: a canção da bossa nova se alimentando de uma tradição que é, ao fim e ao cabo, rural. E aí está o busílis.
Porque o Brasil não é mais o país rural que era antes da bossa nova. O estabelecimento de uma música que fosse tipicamente urbana veio trazendo para a cidade levas após levas de estilos regionais, e ao mesmo tempo foram ondas e ondas de influências externas, rock, soul, pop, música eletrônica, sempre também urbanas – pois são as cidades que se comunicam. Os movimentos pós Bossa da década de 70, como o Clube da Esquina e os nordestinos de Alceu e Ramalho tem um pé nas tradições populares e outro no rock’n roll, e geram frutos até hoje via Lenine e Skank. A geração BRock 80 fez o caminho inverso, gerando uma onda de choque para depois ser progressivamente assimilada, seja por seu próprio movimento, como os Paralamas, seja pelo alargamento do conceito de… MPB. Neste sentido, é possível vizualizar a trajetória da MPB lado a lado com este grande movimento do país do rural em direção ao urbano. Se em 1967 a ligação com a criação folclórica era legitimadora de uma música urbana, hoje este caminho está terminando, não existe mais criação anônima, o que era criação folclórica hoje é assinada – o que não impede que haja trabalhos ainda calcados neste universo com uma vitalidade incrível, como os de Siba ou Renata Rosa.
E aí fica claro que a canção que talvez esteja em um impasse seja a canção na qual se apoiou a chamada MPB, de Chico. O que ocorre é que chegou-se a um ponto do esgarçamento da MPB, via este modelo de canção específico, em que grupos novos já não almejam o reconhecimento por esta sigla, nem a contestam como o BRock 80 – simplesmente não lhe dão tanta importancia. O primeiro choque aconteceu ainda quase no nascedouro da MPB, pela Jovem Guarda, e foi a Tropicália que permitiu, não sem contestações, sua assimilação. Pois a composição da Jovem guarda não tem o modelo composicional da MPB, isso é evidente. Ela não se movimenta pela harmonia, mas pelo riff, por exemplo, o que para um (não tão) hipotético MPBista radical é sinônimo de pobreza musical. Mas se pensarmos na obra atual do Caetano Veloso, trazendo para torno de si musicos das turmas novas, ele não está fazendo nada de diferente de quando defendeu a Jovem Guarda.
Então, à primeira vista, quando se afirma que Sobrevivendo no Inferno é superior de alguma forma a Cambaio, estamos falando de estruturação musical apenas? É evidente que não. Isso me lembra o surgimento do punk, entre 1978 e 79, como uma reação a um empobrecimento e uma exclusão social em marcha na Grã-Bretanha, mas também a um rock progressivo que se tornava cada vez mais anódino, perdia o pé da realidade em suites de 30 minutos sobre temas fantasiosos. A crueza terrível do punk, com baixos e guitarras desafinados, foi um choque de realidade no rock, uma chamada à ordem, uma virada de mesa para apontar em outra direção.
Seria possível então pensar nos Racionais como esta virada em relação à MPB tradicional: Ode aos ratos, representaria um dos últimos degraus de um lance de escada, enquanto Tô ouvindo alguém me chamar, o primeiro degrau do lance seguinte, que faz 180 graus de curva para continuar subindo, mas agora num outro patamar. Neste sentido, Criolo e Emicida, representariam já um degrau acima, um nível de elaboração – num sentido estritamente musical – um pouco maior, a ponto de se relacionarem com estilos e músicos mais distantes de seu universo, como Mulatu Astake e o prório Chico. Mas atenção: esta metafórica escada, que lembra a famigerada linha evolutiva da MPB aventada por Caetano há tempos, fala de processo histórico, de relevância, mas não de mérito artístico em si. Afinal, voltando à origem da comparação, tanto o punk quanto o rock progressivo são relevantes e permanecem na memória e no ouvido, ambos mantém sua influência sobre a produção atual…
Mas aqui cabe marcar duas diferenças fundamentais: primeiro, o fato de Chico não estar nem um pouco descolado da realidade. Ao contrário, ele é um observador atento, e as canções de abertura de seus últimos álbuns comprovam isso, como lembra bem Rômulo Fróes no debate. E aí voltamos ao início do texto: a visão de Chico não é, e nem pode ser, a visão do próprio detento, por absoluta falta de identificação pessoal direta, no sentido social – Chico recorre à identificação humanitária, ao reconhecê-lo como semelhante, filho de Deus, irmão.
Mas a segunda diferença é ainda mais importante. É o fato de a música dos Racionais não ter surgido ex nihilo. O vídeo dos Racionais mencionado por Walter como adendo ao álbum Trutas e Tretas, em que eles mostram todo um histórico do universo de música dos excluídos dentro da metrópole e ignorado pelos meios de comunicação, deixa claro que eles não são de modo algum um primeiro degrau, mas apenas o primeiro que conseguiu uma certa visibilidade, por ter extrapolado o público inicial para abarcar uma população não necessariamente excluída, mas identificada de alguma forma com aquela realidade – senão com aquela estética – um degrau intermediário de outra escada, um outro projeto musical, que em algum momento cruzou com o da chamada MPB, assim como o rock, o soul, a música eletrônica… e que agora é reconhecida por parte de um grupo de músicos como o representado informalmente pelo Rômulo Fróes, na verdade bastante heterogêneo. Uma história que se repete, então?
Sim e não. Porque desta vez esta nova ampliação se dá num ponto limite dos conceitos de canção e MPB, porque a produção musical e também o seu consumo estão descentralizados e o público de classe média que sustentou este projeto histórico-musical da MPB e que Chico representa tão bem agora também se amplia, oriundo de classes mais baixas e com histórias musicais diversas. O que provoca o reconhecimento por parte desta nova Jovem Guarda, ou de Neotropicalistas, à escolha, não apenas dos Racionais, mas também de Gaby Amarantos e a turma do Pará, dos sertanejos universitários, da música brega retrospectivamente… Todos estes movimentos são passíveis de influenciar quem se disponha a ser influenciado por eles, são paradigmas musicais diversos que tem seus lugares ao sol ampliados, e é um grupo de músicos disposto a trazê-los para seus trabalhos, e ampliar seus conceitos particulares de MPB e canção. Uma interpretação de que faz parte da questão da preocupação do timbre como um fator ordenador da música, ao invés de acessório – aspecto que deixo um pouco de de lado aqui propositalmente, para tratar de outros pontos relevantes, mas que tem interação direta com isto, na medida em que estas outras correntes tem sonoridades específicas imediatamente reconhecíveis e bem diferentes da MPB que se tornou tradicional.
E esta aceitação seria garantia de qualidade? De jeito nenhum. Do mesmo modo como Rômulo e Walter concordam brincalhonamente que odeiam bossa nova – no sentido do rótulo que acobertou bobagens musicais e criações tão descoladas da realidade e anódinas quanto as suítes de Rick Wakeman na Inglaterra de 1970, é possível que boa parte da produção atual não sobreviva ao teste da audição daqui a uma década. Assim como a não aceitação do paradigma tropicalista não significa um trabalho menor, obviamente – que o diga Dori Caymmi, que ao gravar compositores contemporâneos escolheu canções de Caetano e Gil anteriores à Tropicália. Assim como há possibilidades de aceitação parcial, de diálogos parciais, sem querer abarcar o mundo com as pernas. Caetano cantou funk carioca, brega, rock? Pois Chico não cantou nada disso, o que não significa que não os tenha reconhecido em sua música, de forma muito diversa, o que permitiu o diálogo entre ele e Criolo. Chegamos a um momento histórico na canção brasileira que me lembra uma chegada tardia à pós-modernidade, um estilhaçamento de conceitos que permite interpretações opostas, sendo ambas verdadeiras, já que tratamos de arte, subjetividade em estado puro. Como disse Walter no debate, dependendo do que eu quiser expressar, eu vou procurar os recursos que façam com que aquilo consiga chegar nas pessoas.
O que me leva a uma última questão, que deixo em aberto: será possível desta diversidade, em algum momento futuro, a música brasileira chegar a uma nova conciliação de classe como a que foi estabelecida pela MPB em 1967, sobre novas bases? Algo desta conciliação parece a meu ver ocorrer na agregação de todas estas correntes populares, mas as bases para isto não estão estabelecidas com firmeza, nem mesmo socialmente, muito menos musicalmente. Estamos no meio de um processo histórico, e girando no turbilhão é impossível perceber a direção. Entender as forças que estão em jogo e as transformações em curso dificilmente mudará a direção destas transformações. Mas permitirá girarmos no turbilhão com estilo, que, em se tratando de arte, é o que realmente importa – menos o futuro da canção, mais as canções que se faz hoje, que são o que aponta para o futuro.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Boca Livre - Quem tem a viola

Bola de Meia, bola de gude

Boca Livre - Toada (Na Direção do Dia)

Roupa Nova - Sapato Velho (Clipe Original de 1981 com áudio e imagem rem...

SERGIO SAMPAIO - EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA

Líder do PUM discursa para Classe Média Tradicional

Alabama Shakes - Hold On (Official Video)

Alabama Shakes - I Found You