sábado, 20 de outubro de 2012

Três Charles

Ouvindo o sensacional documentário sonoro Imbatível ao extremo, entre muitas descobertas, me dei conta de uma trilogia de canções entre os álbuns de 1969 e 1970, gravados ambos com o incrível Trio Mocotó. Uma pequena e algo imprecisa saga em três capítulos, no entanto incrivelmente coerentes entre si, e um excelente exemplo entre tantos da capacidade de Benjor de sintetizar complexidades na simplicidade aparente de seu estilo muito particular.
Take it easy, my brother Charles, do álbum de 69, é um despretensioso apaziguamento. Nenhuma história é contada, mas subentendida: Charles, irmão de cor de Jorge, está prestes a se descontrolar. Jorge, para acalmá-lo, faz um libelo à paz, à sugestão, à simpatia. Ouvida distraidamente, a letra não parece fazer mais sentido do que isto, com sua inesperada menção à chegada do homem à Lua no meio. Ainda assim, sua levada empolgante, entre o soul e o samba, tem algo a dizer. O soul, gênero musical associado à luta pelos direitos dos negros, misturado ao ritmo negro brasileiro por excelência, embalando a expressão irmão de cor, tudo isso já dá pistas sobre o que Jorge está falando. Mas as pistas se materializam ao ouvir a canção que fecha o álbum:
Charles Anjo 45 conta toda a história que Take it easy não conta. A história do dono do morro, temporariamente preso mas idolatrado e esperado ansiosamente de volta (Antes de acabar as férias nosso Charles vai voltar – ele se refere às férias forçadas citadas antes. Charles vai fugir), nos remete a um período de romantização da marginalidade (Seja marginal, seja herói, dizia Hélio Oiticica) que ficou para trás em tempos de UPP. Mas o discurso de Jorge é mais sutil, pois, embora cantada numa discreta primeira pessoa, em especial o refrão, o corpo da letra de Charles anjo 45 oscila entre a persona do próprio Jorge e a de outra pessoa, um personagem, um morador do morro. O discurso de Jorge transita entre o endosso a Charles e a postura de um expectador mais ou menos neutro.
Ouvida retrospectivamente depois de Charles anjo 45, Take it easy my brother Charlesganha desdobramentos de tensão. O aborrecimento de Charles, em uma situação não explicitada, pode resultar em violência, mesmo em morte. A canção solar esconde em si possibilidades tenebrosas. O soul também era o som dos mafiosos, de gangsters, dos que flertavam com a marginalidade. Mas o samba rasgado Charles anjo 45 não tem necessidade de repetir o paralelo já traçado sua letra sem rodeios exige uma ambientação também direta. A passagem do soul para o samba ocorre como Jorge assimila o black is beautiful em Negro é lindo, como lembra bem Fred Coelho no documentário da Rádio Batuta.
Jorge interpreta o Anjo 45 em sua sintaxe característica, entre cantada e falada mesmo quando melismática, quase sem destacar pontos específicos da letra, como um bate-papo de boteco, numa aproximação com o ouvinte. A sempre interessante melodia de Jorge avança movida pela inflexão da fala, num voo de mosca varejeira que parece não ter direção mas tem alvo certo. Jorge quase não a usa para destacar pontos específicos ou dramatizar passagens, seu interesse é fazer a crônica do morro. Já Caetano Veloso teve uma leitura diferente.
Caetano, ao contrário de Jorge, trata de sublinhar cuidadosamente em sua interpretação a melodia da canção, inclusive diminuindo muito seu andamento. Ao fazer isso, tira dela o caráter naturalista e explicita o distanciamento em relação aos acontecimentos, situando-se numa falsa e algo irônica primeira pessoa. Tudo isso que aumenta a dramaticidade da música. Já a gravação de Ben cria esta dramaticidade pelo avesso, ao acelerar brusca e tremendamente o andamento depois do fim da letra. Aí torna-se visível uma tensão que era latente em todo o discurso anterior, em quesaraivadas de balas pro ar são uma celebração.
Então, no álbum seguinte de Jorge, Força Bruta, um novo personagem entrou em cena.
Assim como Charles anjo 45 ressignifica retrospectivamente Take it easy, Charles Jr., ressignifica novamente as duas canções precedentes. Outra vez cantada na primeira pessoa, ela assume uma terceira forma: nem o aparente livre improviso da primeira, nem a história encadeada da segunda, desta vez o que temos é um discurso articulado, uma dissertação, um manifesto. E outra vez a persona de Jorge transita pelo personagem, mas agora de forma diversa: não há o distanciamento. Jorge agora chega efetivamente a ser Charles Jr., toma integralmente para si seu discurso.
Charles Jr., por óbvio, é filho do Anjo 45. Filho da marginalidade, filho da violência. (E a relação do uso do inglês Junior também faz paralelo com o take it easy, e por extensão com o universo do soul da primeira canção, com todos os seus desdobramentos.) Mas o que era um dado objetivo agora é estendido e entendido: Pois eu nasci de um ventre livre / Nasci de um ventre livre no século XX. A herança da escravidão que levou Charles, o irmão de cor, à marginalidade, agora é convertida em uma afirmação de liberdade. A marginalidade foi o estranho, enviesado e possível meio de ser livre, e que ainda assim o levou à prisão. Não há nem sombra da glorificação deste caminho, apenas a constatação. Charles Jr. não se identifica com a marginalidade, mas também não se desvenciha dela. Pois eu já não sou não não o que foram os meus irmãos, masEu também sou um anjo: A identificação com o pai, que vem desde o nome, não implica em seguir seus passos, mas em abrir um novo caminho, como ele abriu. Seja marginal, seja livre. Seja um anjo, seja herói.
As três canções tem a mesmíssima estrutura: refrão curto e grosso que ecoa durante toda a letra, esta conversada sobre uma sequencia de 3 ou 4 acordes, não mais, e novamente o refrão, agora como uma reafirmação implícita de tudo o que foi dito e contado. Um apaziguamento, um festejo, uma reivindicação, um crescendo de tensão, cuja culminância é expressa no andamento mais lento, quase andante, e destacada no arranjo de cordas de Charles Jr. Onde o intermezzo, ao contrário da feroz batucada anterior, é de um violão solo, conseguindo expressividade análoga pelo caminho inverso.
Mas o que talvez seja ponto de ligação mais interessante entre estas três canções é a volta sutil, na terceira delas, da menção que soava tão arbitrária na primeira, da chegada do homem à Lua. Se em Take it easy ele cantava
Depois que o primeiro homem
Maravilhosamente pisou na lua
Eu me senti com direitos, com princípios
E dignidade
De me libertar
Agora ele explica e desenvolve:
Eu tenho fé e o amor e a fé
No século vinte e um
Onde as conquistas científicas espaciais medicinais
E a confraternização dos povos vai vai
E a humildade de um rei
Serão as armas da vitória
Para a paz universal
Mas há uma diferença fundamental entre estas duas passagens: se na primeira as conquistas científicas espaciais davam vazão à luta por uma liberdade pessoal, Charles Jr. já almeja bem mais alto e mais amplo. O pensamento de Jorge Ben ao longo destas três canções traça uma trajetória de refinamento. Seu sonho não é mais individual, e sim coletivo. O apaziguamento de Charles, personagem real, companheiro de peladas da infância de Jorge Ben, dá lugar ao da humanidade, por um mundo em que o caminho da libertação de Charles, e suas armas da vitória não precisem ser um revolver calibre 45. Charles Jr. é um passo civilizatório adiante, um passo utópico, na direção de um mundo em que o lado escuro de Take it easy não seja necessário, em que a vida do Anjo 45não seja em vão.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

VERGONHA PLANETÁRIA - 870 MILHÕES PASSAM FOME NO MUNDO

ONU: quase 870 milhões de pessoas passam fome no mundo

09/10/2012 
Renata Giraldi

Repórter da Agência Brasil
Brasília - No mundo, há aproximadamente 870 milhões de pessoas que sofrem de subnutrição, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A média de de subnutridos representa 12,5% da população mundial. Mas os percentuais aumentam para 23,2% nos países em desenvolvimento e caem para 14,9% nas nações desenvolvidas.

Os dados estão no relatório denominado Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2012 (cuja sigla em inglês é Sofi), divulgado hoje (9), em Roma, na Itália, e se refere ao período de 2010 a 2012. A Ásia é o continente que lidera em número a quantidade de pessoas subnutridas e há um aumento na África.

Pelo relatório, 852 milhões de pessoas subnutridas estão em países em desenvolvimento, representando 15% da população. Mas há cerca de 16 milhões de pessoas que vivem em países desenvolvidos. No entanto, o documento avalia que houve melhoras nos números em comparação a dados das últimas duas décadas.

O relatório é uma publicação conjunta da FAO, do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida) e do Programa Mundial de Alimentos (PMA). Segundo o documento, o número total de pessoas que passam fome caiu em 132 milhões comparando os períodos de 1990 a 1992 e 2010 a 2012.

A América Latina e o Caribe apresentaram progressos, segundo o estudo, mas ainda registram 49 milhões de pessoas com fome. No período de 1990 a 1992, eram 65 milhões de subnutridos. Os dados mostram queda 14,6% para 8,3%.

O diretor-geral da FAO, o brasileiro José Graziano, alertou que é “inaceitável” o número de subnutridos no mundo, considerando os avanços tecnológicos conquistados pela humanidade. Graziano acrescentou que mais de 100 milhões de crianças com menos de 5 anos estão abaixo do peso. Segundo ele, a desnutrição infantil é responsável por mais de 2,5 milhões de crianças mortas por ano.

A crise econômica internacional e seus impactos ainda não causaram efeitos expressivos nas economias em desenvolvido, segundo o relatório. De acordo com o estudo, o impacto dos preços internacionais dos alimentos nos mercados domésticos foi menos acentuado do que o previsto inicialmente.

Edição: Talita Cavalcante

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Brasil registra avanços no combate à fome; programas sociais são referência internacional.
09/10/2012
Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil
Brasília - Os números de pessoas que passam fome ou sofrem de desnutrição no Brasil, em Angola (África) e em Moçambique (África), países de língua portuguesa, caíram no período de 1990 a 2012. A conclusão está no relatório Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2012 (cuja sigla em inglês é Sofi), divulgado hoje (9), em Roma, na Itália.

Pelos dados do relatório, o Brasil conseguiu reduzir de 14,9%, no período de 1990 a 1992, para 6,9%, nos anos de 2010 a 2012, o percentual de subnutridos. No país, cerca de 13 milhões de pessoas passam fome ou sofrem com desnutrição. Os programas sociais desenvolvidos pelo governo brasileiro em parceria com os governos estaduais e municipais, além da iniciativa privada, foram elogiados no documento.

O Programa Bolsa Família é uma referência, segundo o relatório. Para os especialistas, o Bolsa Família é um instrumento positivo para promover a capacitação econômica das comunidades. Há elogios também ao sistema adotado pela prefeitura de Belo Horizonte (Minas Gerais) de combate à fome na periferia da cidade.
 

o povo continua fudendo...


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Um sampler, mil cidades, 40 graus

 

A verve de Fausto Fawcett tornou-se conhecida nacionalmente em 1987, com o estouro de Kátia Flávia, a Godiva de Irajá, possivelmente o primeiro rap a fazer sucesso radiofônico no Brasil. Então, em 1992, Fernanda Abreu o levou de volta às rádios em seu segundo álbum solo, Sla II be sample, com Rio 40 graus, dela, de Fausto e Carlos Laufer.
Sla II be sample, sem chegar a ser um álbum conceitual, ainda assim é construído sobre um conceito, derivado do uso de um instrumento novo à época: o sampler. Hoje é possível fazer tudo o que um sampler fazia há 20 anos e muito mais, com praticamente qualquer computador. Á época, no entanto, a possibilidade de tomar um trecho de uma gravação, isolar determinado instrumento, criar loopings ou inserir trechos em outras gravações, abriam um mundo de possibilidades sonoras. Sla II explora este universo, mas sua grande sacada é extrapolar estas possibilidades da música para outros terrenos: samplear linguagem, samplear conceitos. E Rio 40 Graus é o ponto máximo desta exploração. Fala Fausto Fawcett no release do álbum:
No primeiro disco, (Sla Radical Dance Disco Club) o sampler teve um papel importantíssimo na confecção do clima das músicas. No segundo, virou vedete total, apêndice constante de todas as guitarras, baixos, concepções rítmicas, etc. O sampler é um gravador-sintetizador, que captura, acumula e serve para distorcer, deslocar qualquer pedaço de som ou de música, além de permitir a criação de músicas calcadas em sequências de fragmentação.
Máquina de reinventar, remanejar, recriar sons. Máquina que permite a criação de músicas a partir de outras músicas. Também pode transformar fragmentos sonoros e musicais em fantasmas sonoplásticos rasantes, interferindo em outras músicas. O homem é sampler orgânico. O cérebro é sampler-víscera-mor. More sampler. O corpo é sampler? É divertido imaginar as pessoas como máquinas de vísceras inquietações estimuladas por influências de promíscuas inter-relações com as substâncias do mundo. Máquinas de vísceras, inquietações de nervos transpassados por magnetismos provocados por eletricidade provocada pelo sangue provocado pelos sensores provocados por impressões exteriores e subjetivas manifestações, provocando vísceras inquietações… Os homens são máquinas que inventam outras máquinas, próteses, instrumentos que são extensões, exteriorizações, materializações de processos orgânicos, mentais, corporais que ampliam sua capacidade de influenciar o mundo. Cada máquina é uma espécie de espelho onde os humanos observam o funcionamento, a caricatura mecânica e cibermética de seus processos orgânicos. Máquinas são alívios. O sampler, assim como outras máquinas, é a caricatura cibernética do processo cerebral-metal. Milhões de fragmentos da realidade entram incessantemente no cérebro como curto-circuito de estalos eletromagnéticos de percepção que se chocam, gerando combinações e recombinações de realidade transmutada. A realidade dentro do cérebro vira veloz labirinto de mosaicos mutantes. O mundo, enquanto quintal da atividade humana, é um labirinto de mosaicos mutantes. O sampler pega todas as formas de vida musical e sonora e nos permite criar labirínticos mosaicos de sonoridades mutantes.
Antes mesmo do sampler mental de Fausto Fawcett disparar sua metralhadora musical, uma sequência de canções dentro da canção não se limita a criar uma ambiência ou a servir de introdução, mas já inicia uma construção de intertextualidades intrometendo-se em meio às estrofes: no repertório dos Novos Baianos (a introdução de Com qualquer dois mil réis), Clementina de Jesus (Pergunte ao João), Giberto Gil (introdução deExpresso 2222, Aquele Abraço) Caetano (Soy loco por ti América), Moreira da Silva (Na subida do Morro), vão sucedendo retratos de ser carioca que dialogam com a canção propriamente dita, sendo vários deles curiosamente feitos por baianos – volto a este ponto adiante.
Mas é na letra de Rio 40 graus, em sua poética, sua sintaxe, mixagem lingúistica na emenda desenfreada de palavras que embaralham conceitos, que a estética do sampler vai se mostrar mais profícua. Metralhadora musical. Letra que já se anuncia dando o mote para o que virá: O Rio é uma cidade de cidades misturadas – incluindo a beleza e o caos, cuja indistinção será explorada ao longo de toda a música. O próprio título da canção é sampleado do filme homônimo de Nelson Pereira dos Santos. A partir daí, duas técnicas de estruturação de texto são usadas, no fundo sendo a segunda uma radicalização da primeira:
1- Substituição – o verso Comando de comando submundo vai sendo terminado por palavras diferentes a cada vez, criando um efeito ao mesmo tempo hipnótico pela repetição e de estranhamento pelo desenvolvimento, estendendo a noção de submundo da bandidagem aos filhinhos. A mesma técnica e usada duas vezes mais adiante, completando o verso cachorrada doentia com diversos nomes de bairros cariocas, mas agora com efeito diverso, similar à lista de bairros de Kátia Flávia, incluindo bairros de diversas partes da cidade, e na marcação invocação pra gritaria de torcida da galeracom terminações samba, funk e tiroteio, temas e rítmos que separam e unem a cidade. Cidade retratada por inteiro, em todos os seus submundos, submáfias, subcidades;
2- Fusão – naquilo que é o clímax da canção, a mixagem entre dois temas – equipamento musical e armamento – vem num galope alucinado em que adjetivos de um são usados no outro, tornados indistintos, confundindo e equiparando as duas coisas. A batucada metralha, a sub-usi tem cartucho musical. A identificação absoluta entre estética e ética, entre representação e realidade. A problematização desta indistinção entre dois universos, que levaram, por exemplo, o funk a ser criminalizado e o crime a ser glamurizado por muito tempo, está no cerne da crônica carioca de Fausto.
A substituição contínua e a fusão de diferentes: Rio 40 graus isto ocorre concomitantemente em termos sonoros, linguísticos e conceituais. A velocidade estonteante da recitação da letra verborrágica tem um efeito hipnótico e anestesiante que leva à a uma invertida e irônica celebração de uma purgação: purgatório da beleza e do caos. Fausto e Fernanda fazem um desvelamento parcial, mas recusam-se a uma simplificação. Independente disto, o diagnóstico é preciso e extremamente atual:
O Rio é uma cidade
De cidades camufladas
Com governos misturados
Camuflados, paralelos
Sorrateiros
Ocultando comandos…
Numa época em que, não apenas no Rio de Janeiro, organizações criminosas se formam a partir de instituições e se infiltram em instituições (o Filme Tropa de Elite IIretrata exatamente as milícias se originando do seio da polícia e estendendo tentáculos na política – e o atual prefeito é justamente acusado de conivência tanto com milícias quanto com empreiteiras e de subornar outros partidos, o que leva o blog a declarar voto para prefeito no dia 7 de outubro em Marcelo Freixo, retratado no filme), estes versos soam como se tivessem sido compostos ontem.
Mas outros versos, ainda que de forma mais geral, talvez vão até mais fundo na questão:
Quem é dono desse bêco?
Quem é dono dessa rua?
De quem é esse edifício?
De quem é esse lugar?
É meu esse lugar / Sou carioca
Eu quero meu crachá!
Sou carioca, pô!
A praça é do povo como o céu é do condor, cantava Castro Alves. Em tempos que também são de ocupação de praças e ruas, da Praça Tahir a Wall Street, a lembrança de que a cidade pertence a seus habitantes é de uma obviedade que se oculta a cada dia. Alguns anos depois, Fernanda Abreu regravou Rio 40 graus com Chico Science e Nação Zumbi.
O estranhamento de ouvir o pernambucano Chico Science, ligado umbilicalmente à capital de Pernambuco, transplantar a batucada Mangue Beat para o rap de Fernanda, ex-integrante do mais carioca dos conjuntos de rock, a Blitz, e exclamar convictamente:sou carioca! logo é sucedido pela constatação da frase um dia dita por João Gilberto: O Rio é a cidade de todos os brasileiros. Caetano Veloso conta de amigos de Santo Amaro da Purificação, em sua infância, que pelos jornais, rádio e TV, novelas e canções conheciam o Rio de Janeiro tão bem como os arredores de suas casas, sem nunca terem pisado lá. O Rio de Janeiro assume na poesia de Fausto Fawcett um cosmopolitismo que não deixa de ser extremamente brasileiro. Não à toa os Gil, Caetano e Novos baianos, radicados no Rio, tem suas canções sampleadas, muitas delas louvando explicitamente o Rio, a carioquice, um jeito de fruir a cidade, de vivenciá-la. Microcosmo do país, Capital do sangue quente do melhor e do pior do Brasil, o Rio aponta direções possíveis, espelha mazelas, às vezes é vanguarda, às vezes se perde em suas contradições.
No fundo, Rio 40 graus é simplesmente uma canção de amor, amor carinhoso e bandido, dos que dão dor e prazer ao mesmo tempo. Fausto afirma ser um pessimista festivo. Mas esta também é uma canção de quem acredita que deste mato sai coelho, que deste amálgama, desta maravilha mutante de samplers de influências do Brasil e do mundo pode sair algo original, inesperado, algo de bom, que pode vir a iluminar de volta o Brasil e o mundo. Como já fez e faz cotidianamente, aliás, sem que nos demos conta, e é isto que Rio 40 graus vem também apontar. Uma canção de amor apaixonado e doentio, para o bem e para o mal. Na saúde e na doença. Na beleza e no caos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

MPB e violência, por Francisco Bosco

MPB e violência, por Francisco Bosco

Em sua coluna desta semana no jornal O Globo, o compositor e ensaísta, entre outras coisas, Francisco Bosco levou avante de um modo surpreendente para mim a discussão sobre a MPB cujo último lance foi o debate entre Rômulo Fróes e Walter Garcia, de que tratei aqui no blog (e particularmente a confrontação entre as canções Ode aos Ratos, de Chico Buarque e Edu Lobo, e Tô ouvindo alguém me chamar, dos Racionais MCs). Francisco toca num ponto sensível e basilar, o suposto consenso de classes promovido pelo modelo de MPB forjado nos anos 1960 e que agora vai se desvanecendo, para alguns, ou reconfigurando, para outros, mas que, de qualquer forma, precisa ter sua real amplitude avaliada e entendida como parte de um contexto que vai muito além do musical. Eis aí.
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Conforme noticiado pela imprensa, há duas semanas o ator Marcelo Faria agrediu com uma garrafada na testa o segurança de uma casa de shows no Rio de Janeiro porque foi impedido de entrar na área reservada às pessoas que compraram ingressos de mesa, segundo nota oficial emitida pela casa de espetáculos. Uma testemunha depôs a favor do segurança, responsabilizando o ator pela agressão, dizendo ter visto o ator provocar, ofender e finalmente tentar invadir o espaço guardado pelo segurança, que permaneceu tranquilo e no estrito cumprimento de seu dever até ser abalroado pelo agressor. A agressão ocorreu durante o show de um compositor jovem, da Zona Sul do Rio (nota do Túlio: era o cantor Rogê), que teve participação de sambistas como Arlindo Cruz e Wilson das Neves. Pois bem, a tal testemunha sou eu mas não quero tratar aqui do que esse caso tem de particular (o que agora será feito pela Justiça), mas sim do que tem de geral. Ele permite compreender em boa parte por que se fala de uma crise da música popular brasileira e mesmo de um suposto fim da canção.
A canção popular brasileira se consolida nos anos 1930, com a geração de Noel Rosa, Dorival Caymmi, Ary Barroso, entre outros. É o momento em que o samba passa de atividade de vagabundos para símbolo da cultura nacional. É o momento em que Gilberto Freyre publica o clássico Casa-grande & senzala, que mudou inteiramente a interpretação da formação do país. O samba é, tanto da perspectiva formal quanto da social, o resultado de mestiçagens. Formalmente, combina a rítmica de origem africana, baseada na síncope (ou na contrametricidade, para evitarmos o etnocentrismo do termo síncope), à tradição melódica e harmônica da música europeia. Socialmente, foi se formando e consolidando por meio dos encontros entre sujeitos da classe média e das favelas;brancos,mulatos e pretos; intelectuais e iletrados. Noel Rosa é o maior representante inicial dessa mestiçagem formal e social. O poeta da Vila, ex-estudante do colégio São Bento, trocou a faculdade de Medicina pela companhia dos pretos do Estácio e fundiu a rítmica e o tema da malandragem a letras de alta intensidade poética, à altura do modernismo então em voga nas artes.
Décadas mais tarde, o que se chamaria de MPB é uma radicalização dessas mestiçagens. A bossa nova tomaria a tradição do samba como base para a modernização da canção brasileira.A geração dosanos 1960 foi feita de universitários, na maioria brancos (ou brancos simbólicos), que aprofundavam relações a um tempo com o Brasil popular e com o que havia de mais contemporâneo no mundo. O que se chama de MPB é portanto essa música que se tornou símbolo da cultura brasileira e que simboliza justamente uma ideia ou ideologia de conciliação entre as classes e raças.Quando se fala no fim da canção, é também e talvez principalmente a crença nessa ideologia que está em jogo. Por quê?
Voltemos ao show e à agressão do ator. Como eu disse, o show era de um cantor de classe média, branco simbólico, da Zona Sul. O público tinha majoritariamente as mesmas características (eu inclusive). O que acontecia no palco era a celebração, musical e social, da conciliação de classes e raças. Mas o que aconteceu na plateia era o desmentido ou ao menos a brutal relativização desse acontecimento. Pois a agressão não foi um caso isolado. Não foi nem mesmo uma briga de homem contra homem, e sim de rico contra pobre, famoso contra anônimo, privilegiado contra desfavorecido. Não acredito que o agressor tivesse a coragem de fazer o mesmo na Zona Norte, em um contexto onde não se sentisse protegido pelos membros da própria classe. Com efeito, ninguém mais testemunhou contra o ator, embora dezenas de pessoas tenham visto a agressão.
Pois bem, para que aquele acontecimento musical pudesse ter valor de verdade social, a agressão deveria ter sofrido um repúdio total e imediato. Isso mostraria ser autêntica a via civilizatória de uma conquista da civilidade e da igualdade por meios graduais e sem traumas. Tal como se deu, o acontecimento desmentiu a promessa da MPB. Eis o resumo da relação da MPB com a realidade social brasileira:umaparte destaa confirma, mas outra a desmente. É precisamente no intervalo entre a promessa formal e os desmentidos reais que surge a canção poderosa e anticordial dos Racionais.
E é também por isso que, na última canção de seu último disco, Chico Buarque abandona a sua característica terceira pessoa para assumir o lugar do herdeiro sarará/ de um feroz senhor de engenho. Como se já não fosse legítimo ocupar o lugar do outro.
Sinhá – Chico Buarque e João Bosco