sexta-feira, 29 de março de 2013

Espada no ventre

Com este artigo  da série sobre a relação da imprensa com o poder, o autor pretende contribuir para que se dê um adeus às ilusões e se alcance a consciência de que a mídia hegemônica brasileira não se transformará por dentro. Ou se constituem outras vozes, outros polos, ou estaremos sempre submetidos ao discurso único, com uma visão de mundo da direita.

 Castelo Branco, então presidente do país, acompanhado de militares em São Paulo
 Castelo Branco, primeiro presidente pós-golpe, acompanhado de militares em São Paulo
 Foto: Domício Pinheiro/Agência Estado
(...) A burguesia fez a apoteose da espada; a espada
a domina. Destruiu a imprensa revolucionária; sua
própria imprensa foi destruída. Colocou as reuniões
populares sob a vigilância da polícia; seus salões
estão sob a vigilância da polícia. Dissolveu a Guarda
Nacional democrática; sua própria Guarda Nacional foi
dissolvida. Impôs o estado de sítio; o estado de sítio
foi-lhe imposto. (...) Desterrou pessoas sem julgamento;
está sendo desterrada sem julgamento. (...) A burguesia
não se cansava de gritar à revolução o que
Santo Arsênio gritou aos cristãos:
“Fuge, tace, quiesce!” (Foge, cala, sossega!). Agora é Bonaparte que grita à burguesia: “Fuge, tace, quiesce!”


MARX, Karl. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann.
Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra,
1974, 2ª edição, pág. 111.
 

Aquilo que o mundo ocidental entendeu como jornalismo, para além de sua inevitável natureza de classe e de sua também inevitável condição de participante ativo da luta política, cultural e ideológica dos povos, comportou, em seu desenvolvimento a partir do século 19, algum grau de compromisso com a verdade, com a busca da verdade ao menos; com o respeito pelos fatos, por mais que eles sempre invoquem interpretação; alguma preocupação com um olhar múltiplo, que não permita uma única opinião sobre o acontecimento. O que poderia ser chamada de uma visão liberal-capitalista do jornalismo, que raramente se completou no Brasil e é ainda mais rara nos dias de hoje.
  
O fato de uma visão, chamemos assim, moderna de jornalismo ter nos alcançado ali pelo final dos anos 40 do século passado, com as novas técnicas do lead, da pirâmide invertida, tão proclamada como inovação, se nos ajudou na arquitetura das
notícias, se suplantou o chamado nariz de cera, não modificou em nada o cenário ideológico, político de nossa imprensa, e naquele tempo, falamos agora dos anos 50 e 60 do século 20, falar em imprensa era mais próprio do que hoje porque o domínio era do jornalismo impresso. Eram os grandes jornais, sobretudo, ao lado das emissoras de rádio, que formavam opinião, embora a ideia de formação de opinião demande muitas discussões, mas vá lá que seja. A televisão apenas engatinhava.
  
Com a chegada da noção de pirâmide invertida, com a ideia do lead, com a síntese do fato no primeiro parágrafo, respondendo às perguntas clássicas do quem, como, quando, onde e por quê, eliminou-se o famoso nariz de cera, obrigatória maneira de iniciar qualquer matéria, que correspondia a uma espécie de introdução para depois chegar ao fato propriamente dito. Era uma enrolação, descartada pelas novas técnicas do jornalismo, que propunham que se fosse diretamente ao assunto, facilitando-se assim a vida do leitor. E daí? Tudo muito bem, tudo muito certo, um bom avanço técnico. Era possível com isso, no entanto, descartar o uso político-ideológico do jornalismo? Evidentemente, não. E as décadas de 1950 e 1960, no Brasil, são a maior evidência disso.

Nos textos anteriores, tratei basicamente de episódios que envolveram a colaboração e participação ostensivas da imprensa nos episódios que culminaram com a tentativa de golpe contra Getúlio Vargas e seu suicídio, entremeados com a notável história de Última Hora, esforço contra-hegemônico da imprensa daquele período. Aqui me dedico a dar duas ou três palavras em torno do envolvimento profundo da mídia brasileira de então na articulação do golpe de 1964. Tenho a pretensão de, aligeiradamente, contribuir para que se dê um adeus às ilusões, para que se alcance a consciência de que a mídia hegemônica brasileira não se transformará por dentro. Ou se constituem outras vozes, outros polos, ou estaremos sempre submetidos ao discurso único, com uma visão de mundo da direita.


O jornal Correio da Manhã talvez seja a personificação trágica dos dilemas burgueses – em momentos de crise, acreditam que ditaduras podem ser a solução momentânea, para que depois, e rapidamente, retomem o controle e permitam, então, a volta da democracia, mais domesticada. Marx dizia mais ou menos isto: a burguesia chama a espada e depois a espada se volta contra ela – está lá, em O 18 Brumário. Sem tirar nem pôr, foi o que aconteceu com o Correio da Manhã, nascido em 1901, opositor de Getúlio desde sempre, de Juscelino, de Goulart, decisivo para o desencadeamento do golpe de 1964, uma ditadura que perdurou por 21 anos e acabou por determinar o fim do Correio da Manhã, que quis, logo que o golpe mostrou as garras, enfrentar a espada e foi ao chão, deixando de circular em 1974.
  
Falo do Correio da Manhã para lembrar que o golpe de 1964 contou com a participação decisiva da imprensa brasileira, que não aceitava de modo nenhum o governo reformista de João Goulart, o qual, sem dúvida, encarnava o getulismo, espectro que ainda atormentava os barões da mídia de então. Com aquele projeto político a imprensa não concordava, tinha outro projeto para o país, e por este se batia, sem que se importasse com critérios jornalísticos liberais, aqueles aos quais me referi no início deste texto.

Não havia nenhuma importância se no lugar dele viesse uma ditadura. Melhor seria. Se não fosse possível derrotar “a república sindicalista” pelas urnas, se não era possível emplacar a UDN no poder, qualquer coisa seria preferível, mesmo que fosse a espada. Ainda mais uma vez, podemos lembrar Marx, também em O 18 Brumário: “Antes um fim com terror do que um terror sem fim”, como gritava o burguês francês, clamando pela espada. Nesse caso, entre o voto e o golpe, a mídia de então preferiu o golpe, e se juntou articuladamente com os militares golpistas para fazer 1964. Que viesse a espada. Mesmo que depois – sem que o soubesse antes – sentisse a lâmina fina entrando no próprio ventre.
  
Tratava-se, e não se imagine nenhuma inocência nisso, qualquer espontaneidade, quaisquer laivos de jornalismo em sentido estrito, aqueles próprios da escola liberal, tratava-se de criar um clima de pânico, mostrar a existência de uma perigosa, aterrorizante república sindicalista, atemorizar e conclamar os latifundiários à ação com o espectro da reforma agrária, amedrontar as camadas médias com as incômodas greves, chamar a massa de católicos para se opor às reformas que Goulart pretendia fazer, trazer para a reação instituições como a Igreja Católica, então muito suscetível a isso, assustar a todos com as ameaças, não importa se verdadeiras, em relação à propriedade privada, sacrossanta propriedade privada, que estaria em risco.

Tudo isso foi feito de comum acordo. Os maiores jornais do país, sobretudo aqueles do Centro-Sul, onde se localiza o quartel-general da mídia golpista, e os militares, com os quais os dirigentes da imprensa se reuniam. Thomas Skidmore diz que o golpe de 1964 foi festejado pela maior parte da mídia brasileira, citando os jornais que lutavam abertamente pela deposição do governo Goulart: Jornal do Brasil, Correio da Manhã, O Globo, Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, além da cadeia de revistas, jornais e emissoras de rádio dos Diários Associados. Havia uma ordem unida para tanto, e ponto final. Não se trata de teoria conspiratória. Tratava-se de conspiração na qual a imprensa brasileira estava metida dos pés à cabeça.

Assim, sei, não estou dizendo
novidades, mas reavivando a memória, sobretudo, para os que se assustam com os movimentos ousados, e golpistas, da mídia atual contra o projeto político iniciado com a vitória de Lula em 2002, e especialmente contra o ex-presidente, pelo qual a mídia brasileira, salvo sempre as pouquíssimas exceções, nutre um especial ódio de classe e contra  o qual desenvolve um jornalismo de campanha ininterrupto.

O que se pode dizer, para não incorrermos em transposições históricas equivocadas, é que não há clima, nesse momento, para golpes militares numa América Latina marcada pela crescente intervenção dos povos, que tem seguidamente eleito governantes de esquerda de variados matizes. A mídia golpista, no entanto, não descansa, e isso não podemos esquecer nem subestimar.

Quando não tem a perspectiva do voto, quando a UDN perde força, quando o PSDB definha, quando o DEM quase desaparece, quando um PPS ex-comunista vira correia de transmissão da extrema direita, a mídia flerta com o crime, digo, com o golpe, venha ele de onde vier, se puder vir, e não creio que possa. E
flertar com o crime, nos dias de hoje, não é apenas uma metáfora – basta lembrar as conexões profundas entre a quadrilha do Cachoeira e a revista Veja.

Pode acontecer de as novas gerações, inclusive as que estudam nas nossas escolas de comunicação, marcadas às vezes por recusa a discussões com o ângulo político que escolho aqui, nem sequer conhecerem esses fatos ou, noutra hipótese, não concordarem com minha visão, quem sabe tida no território das mal-afamadas teorias da conspiração, como se à mídia fosse vedada qualquer conspiração por força de seus ideais liberais e sua diversidade. Balela. Ela se articula, defende posições e, em muitos casos, conspira, como é o caso de que estamos tratando, o golpe de 1964.

E, vá lá que seja, que desconfiar é sempre bom para quem estiver pesquisando, para quem se dedica ao estudo de quaisquer períodos históricos, quem sabe convença mais a palavra de uma fonte mais acreditada, em entrevista publicada no livro A Censura Política na Imprensa Brasileira – 1968-1978, do jornalista Paolo Marconi. Ruy Mesquita, então diretor e coproprietário de O Estado de S. Paulo, dá a entrevista a que me refiro no mês de outubro de 1974.

Ele afirma que o único recurso para se opor ao que chamava conspiração de Goulart era o golpe – desculpe, Revolução, com maiúscula, que era como ele chamava o golpe. Mas me permitam continuar chamando 64 como golpe, mais próprio. Para fazer justiça, ele disse, então, que sabia que no dia seguinte estaria contra o novo governo ditatorial, embora seja uma declaração que não deva ser levada ao pé da letra porque não foi bem assim. De qualquer forma, outra vez, é preferível chamar a espada a qualquer coisa parecida com governos progressistas.

Confessa: ele e o pai, Júlio de Mesquita Filho, morto em 1969, participaram ativamente das articulações golpistas que redundaram no golpe de 1964 – “tínhamos reuniões diárias com militares que se opunham à situação e que acabaram derrubando Goulart”. Será necessário um testemunho mais idôneo, confiável, veraz do que esse para demonstrar o quanto a mídia brasileira se empenhou para implantar o regime de terror e morte que foi a ditadura militar?

E, como a família Mesquita, também conspiravam Chateaubriand, os Marinho, os Breno Caldas, os Frias, os Nascimento Brito, todos os chefes de família da mídia brasileira, interessados no golpe, os grandes e os pequenos, porque havia jornais pelos estados comungando com aqueles objetivos, todos na conspiração contra um governo legítimo, que cometia o pecado de querer fazer reformas, porque queria ser soberano diante dos EUA.

Não pretendo fazer um estudo de caso sobre a intervenção da imprensa brasileira no golpe de 1964. Reavivo a memória para afirmar, nem que como obviedade, que a imprensa brasileira, como o fará em várias outras ocasiões, mandou o jornalismo liberal às favas, embora se escondesse atrás dele, e atuou como um autêntico partido político, um partido conservador, defensor dos interesses dos EUA e das classes dominantes nacionais. Claramente um partido que se colocava contra os interesses populares, como o faz até os dias de hoje, sem nenhum pudor, sem esforço algum para desenvolver um jornalismo próximo do que pregam seus próprios manuais.

Volto ao Correio da Manhã, naquele momento o mais influente diário brasileiro, apenas para lembrar os históricos editoriais do dia 31 de março de 1964:

Basta!

E o de 1º de abril do mesmo ano:   

Fora!

Esses títulos indicam a natureza partidária de direita da imprensa da época, impositiva, prescritiva, senhora da razão, dona do discurso. É como se fornecesse uma senha aos golpistas, aliás, já em marcha sob a direção da “vaca fardada”, apelido atribuído por Olímpio Mourão Filho a ele mesmo, que saíra com seus soldados de Minas Gerais, em 31 de março, para o Rio de Janeiro com o objetivo de consumar o golpe. O clima estava criado, as condições estavam dadas – era esse o recado da imprensa. Aquela ideia do jornalismo liberal, avessa aos pontos de exclamação, do jornalismo objetivo, foi mandada às favas, como se vê.

Era uma exortação prévia e uma comemoração, já que os jornais sabiam o que estava por vir, o que estava na iminência de ocorrer, não importando, como já dito, as consequências do golpe, o que a espada viria a fazer, o sangue que correria, as torturas que viriam, o terror estatal que sobreviria, os 21 anos que atingiriam inclusive os jornais, esses mesmos que chamaram a espada, que de alguma maneira também serão atingidos, embora nunca tenham sido tão violentados como o foram aqueles que resolveram se opor efetivamente à ditadura.


É sabido e consabido que o Correio da Manhã, muito mais que o Estadão, ato contínuo, iniciou a luta contra as atrocidades da espada, que vieram muito mais cedo do que a imprensa golpista acreditava e cujo domínio duraria muito mais do que ela esperava. A maldição do bruxo do século 19 persistia, assustadora. E, ao levantar-se contra a espada, o Correio da Manhã em pouquíssimo tempo desapareceria. Antes que pudesse ver o retorno à democracia, que só viria em 1985, com a eleição indireta de Tancredo Neves à Presidência da República.

Não sei se dirigentes da imprensa brasileira chegaram, em algum momento, a viver alguma crise de consciência pelo monstro que produziram, ou se resolveram apascentar a alma com a ideia de que não tiveram culpa no que houve a seguir. Pelo visto, pelo que continuam a fazer, a crise nem sequer lhes resvalou a alma. Fosse lhes dada a chance, e repetiriam a dose. Com gosto. Não recolheram lições do episódio, ainda. Nem sei se há qualquer perspectiva de que venham a fazê-lo.

A tragédia do burguês que clama à chegada da espada para resolver seus dilemas se apresentava com todas as suas cores, dramáticas cores, para o Correio da Manhã. O chamamento à espada é sempre arriscado. Sempre. Melhor arriscar tudo na democracia. A mídia brasileira ainda não aprendeu a arriscar tudo na democracia. Aposta sempre no golpe, de um jeito ou de outro. Pode não ter chance, mas, que sempre tenta, tenta. Essa índole ninguém pode lhe negar. O espírito golpista é parte de sua natureza.    


Referências bibliográficas

ANDRADE, Jeferson (com a colaboração de Joel Silveira). Um Jornal Assassinado: A Última Batalha do Correio da Manhã. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991.
COTTA, Pery. Calandra – o Sufoco da Imprensa nos Anos de Chumbo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.
JOSÉ, Emiliano. Jornalismo de Campanha e a Constituição de 1988. Salvador: Edufba, Assembleia Legislativa da Bahia, 2010.
KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários – Nos Tempos da Imprensa Alternativa. São Paulo: Editorial Scritta, 1991.
MARCONI, Paolo. A Censura Política na Imprensa Brasileira (1968-1978). São Paulo: Global Editora, 1980.
MARX, Karl. O 18 Brumário e Cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.
SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Castelo a Tancredo, 1964-1985. Tradução de Mário Salviano Silva. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
WAINER, Samuel. Minha Razão de Viver – Memórias de um Repórter. Rio de Janeiro: Record, 1988.

Emiliano José é professor doutor (aposentado) em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, jornalista, escritor e integrante do Conselho de Redação de Teoria e Debate


quinta-feira, 28 de março de 2013

A poesia tem comunicação secreta com o sofrimento do homem. Pablo Neruda
























Chico, sonhos e cidade, labirintos e jogos de espelhos

 
Acho que já escrevi por aqui minha impressão de que as duas maiores fontes de inspiração para o Chico Buarque hoje são a cidade e suas implicações, em primeiro lugar, e em segundo seus sonhos. Chico, que sempre fora um observador atento do mundo, de alguns anos para cá, coincidindo com uma absoluta maturidade estilística, renunciou, talvez por desencanto ou convencimento de sua inutilidade pela experiência, a qualquer tipo de militância que sua música pudesse ter, passando a apenas descrever agudamente o que vê. Este olhar se volta para fora ao cantar o Rio de Janeiro, e para dentro ao falar de suas influências, como em Paratodos; rever fatos da juventude com os olhos maduros ou tratar do próprio tema do envelhecimento, como em A foto da capa e Tempo e artista; emular os labirintos da memória como em Barafunda; ou contar as experiências absolutamente pessoais, vividas efetivamente ou não, de Sonhos sonhos são e Outros sonhos.
Chico já contou em entrevistas de seu incômodo em perceber que seu público a cada dia está menos interessado em suas novas composições, e prefere que ele repita as antigas. Como se lhe dissesse: esta é legal, mas toca Quem te viu, quem te vê. A este respeito, ele teve também um sonho, que envolve Bolero Blues, intrincada parceria com o baixista Jorge Helder, melodia tortuosa e dificílima de cantar, que recebeu letra que é meio reminiscência de juventude, meio sonho também. O que Chico relata é o seguinte: um show em que ele cantasse apenas e unicamente Bolero Blues, inúmeras vezes. A platéia a princípio estranharia, mais tarde iria aderindo, aprendendo a canção e acompanhando, até que, por fim, a aclamaria, chamando Chico de volta ao palco para um bis em que ela seria mais uma vez repetida, agora acompanhada em coro por um público que, finalmente, seria conquistado ainda que quase à força, pelos novos caminhos da canção de Helder e Chico.

Bolero Blues – Chico conta o sonho e canta a música

Bolero Blues – desconstrução: Chico comenta a canção, apresenta a letra para Jorge Helder e a cantam pela primeira vez

Este desejo expresso por Chico de que o público acompanhe a estilização de sua obra é também a consciência de quem faz uma arte que já está estabelecida, que não tem mais grandes novidades a apresentar – nas suas palavras, O que eu posso é refazer da melhor maneira possível o que já fiz. Daí vem um burilamento que poderia chegar a um parnasianismo sem foco ou uma poesia atemática, não fosse Chico por natureza um cronista do cotidiano, tendo isso também entranhado em seu estilo.
Muito já se falou e falará sobre a polêmica sensação de (pau, pedra,) fim de caminho do formato canção, e das novas vertentes musicais que apontam possibilidades de direção, e se estas possibilidades ainda se configuram canção etc. (entre outros lugares, neste artigo referencial de Fernando de Barros e Silva, ponto de partida deste post.) O que Chico faz é, dentro destes parâmetros estritos da correlação melodia/harmonia/letra a se completarem em sentido, parâmetros estabelecidos em última instância por Tom Jobim, mostrar a cada vez que ainda há possibilidades a serem descobertas, sutilezas crescentes a serem percebidas. E faz isso sem perder o pé com a realidade, ao contrário, pondo tudo isto a serviço do olhar.

Carioca

A crônica de Carioca mostra isso. A interação fina destes três elementos em uma obra una consegue efeitos sutis e extraordinários, a serem percebidos pelo ouvinte de forma subreptícia, tanto em se tratando de versos específicos quanto da própria estrutura da composição. Em inúmeros momentos a melodia de Carioca ilustra o que a letra diz,e vice-versa. A começar pelo pregão do vendedor de tapioca, cantado já em notas agudas na abertura. Outro efeito conseguido é do povaréu sonâmbulo ambulando que nem muamba em notas conjuntas que se repetem sem padrão exato, como alguém que troca as pernas.
Mas o verso que vejo como a obra-prima em se tratando desta relação tripla formando novos significados é O Homem da Gávea criou asas. Primeiro pelo verso em si com seu desdobramento de sentidos, extrapolando os saltadores de asa delta da Pedra da Gávea para completar uma implícita linha evolutiva darwiniana – o Homo Habilis inventou como usar ferramentas, o Homo Erectus passou a andar de pé e o Homo Gaveas… paralelamente, a melodia segue uma linha ascendente que termina exatamente na nota aguda inicial, que vai continuar na menção ao voo da gaivota, iniciando a repetição melódica, em que homem corre e se joga no vazio para, como a gaivota vadia, voar nas mesmas notas agudas, planando no alto da sétima maior do acorde, sustentado pelo vento.
Por outro lado, Carioca é o acompanhamento de um dia típico da cidade, feito por Chico de sua janela lírica, digamos assim (o clip da canção é exatamente ilustração disto, pondo Chico atrás de uma hipotética vidraça espelhada na esquina das ruas Sete de Setembro e Ramalho Ortigão, no centro do Rio, assistindo o dia passar sem ser visto e divertindo-se com isso. Mas a canção, diversamente, passa-se na orla.) Acompanhando o dia declinante, após a primeira repetição do tema (exatamente a do homem da Gávea/gaivota) na sétima maior, as seguintes se iniciam e notas cada vez mais graves dentro do mesmo acorde, como o sol que se aproxima da crista das montanhas, descrito na terceira estrofe que se inicia na sexta maior, um tom abaixo, até a noite que já se anuncia na última, iniciada na quinta do acorde, dois tons abaixo da nota inicial.

Suburbio

Se Chico afirma que a música de Tom Jobim o modelou e hoje está ainda mais presente no que faz, então podemos concluir que Subúrbio está para Carioca assim como o Samba de uma nota só está para Desafinado. São as duas faces da moeda harmonia/melodia, mas neste caso também são as duas faces da mesma cidade, uma solar, outra sombria. E Chico segue a lição da música de Tom, criada no e para o cenário de Carioca, para cantar o outro lado aproximando-se da música que é feita para além do formato em que atua. O rap, tido por alguns como sucedâneo da canção ou no mínimo de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos, nas palavras do Chico. O rap, uma das vozes que desafinou o coro dos contentes do consenso da MPB, uma voz particularmente forte por representar uma parcela da população que não costuma ter voz.
Já comentei aqui no blog como Chico se aproxima do universo do rap sem sair do seu, ao fazer um rap/embolada em Ode aos ratos, parceria com Edu Lobo (filho de Tom Jobim nas palavras do próprio). Aqui o estratagema é outro, pois se trata, como a letra define, de um choro-canção. Chico consegue novamente unir mundos diversos. Arthur Nestrovski aponta na aula-show O fim da canção, na Rádio Batuta (link aí à direita) que Chico transpõe o cromatismo típico deste gênero da melodia para a harmonia, fazendo uma condução de baixo ascendente por semitons enquanto a melodia se fixa em apenas duas notas alternadas. Melodia inicial tipicamente jobiniana (Insensatez, por exemplo), mas que de acordo com Luiz Tatit também é a mais próxima da entonação falada (A melodia em linha reta do Samba de uma nota só, apesar do paralelo, tem outras intenções que não a procura da naturalidade. No entanto, justamente no verso Fala na língua do rap Chico recorre à melodia reta, conseguindo um efeito diverso de Tom, mas ambos radicalizando a melodia ao quase negá-la), assim como os versos de comprimentos irregulares também se aproximam do falado, da acentuação quebrada do rap. Enquanto a harmonia afasta-se e avança no caminho jobiniano que Chico percorre, a melodia, sem deixar de ter a referência típica da bossa-nova em que a harmonia se move sob a melodia, aproxima-se o quanto pode do canto falado microtonal do rap, da língua das ruas.
A sequência de convocações de bairros encontra paralelo nas que são feitas no rap juntando as comunidades. A citação de Águas de Março acompanhada de um palavrão traça um paralelo que lembra o significado original da sub-urbe: também aqui o caminho também tem seu fim, mas se em Tom trata-se do limite onde começa a natureza, aqui trata-se do lugar onde a civilização, em seu sentido estrito, perde a força, esvanece; onde a cidade termina. O que era uma elegia converte-se em amargor. Aos versos Cidade Maravilhosa / És minha seguem-se Desbanca a outra / A tal que abusa / De ser tão maravilhosa. Chico chama o outro lado da cidade, lado que admite implicitamente não ser o seu, de labirinto, onde ele se perde e anda em roda. Um labirinto como a melodia de Bolero Blues, onde ele também se perde nos versos E a Barão da Torre e a Vinícius de Moraes / São de repente estranhas ruas, mas principalmente se perde nas vielas da melodia de Jorge Helder. Chico continuamente re-conhece seu lugar e seu tempo, e continuamente busca ser re-conhecido por seu público, reconstruindo os labirintos da cidade e da memória em suas canções. Quer falar de nós e de seus sonhos. Que às vezes se confundem e são o mesmo.