domingo, 4 de novembro de 2012

Três ao mesmo tempo e seus encontros

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Já falei aqui, tanto recomendando quanto escrevendo artigos a partir dele, do debate entre Rômulo Fróes e Walter Garcia, mediado por Paulo da Costa e Silva, na série Desentendimentos da revista digital Serrote, do IMS. Pois vou espremer mais um pouquinho esta conversa deles para tirar mais um caldo. Na quarta parte do debate, ao comparar as escolhas – e escolas – de Chico Buarque por um caminhoo composicional e musical que privilegia a tradição harmônico melódico, e de Caetano Veloso tratando o timbre como um elemento em pé de igualdade com os demais – a mesma velha discussão de sempre, ocorre um desentendimento real entre eles, ao citarem dois trabalhos distintos do violonista e compositor Kiko Dinucci, o Padê e o Metá-Metá. Transcrevo aqui o trechinho da discussão:
Walter: Sob esse seu critério, o Padê, sobre o qual eu já ouvi e já falei, ou vou ouvir e falar: “bom, isso aqui também é uma sonoridade ultrapassada”, e não é! Dá conta extremamente das canções.
Rômulo: Nada! O Padê? Como assim?
Walter: Exatamente. O Padê é muito mais próximo do disco Chico do que do disco do Caetano Veloso.
Rômulo: Ah, não. Não é, não é. POde até num sentido de chagar… eu tenho certeza que não é porque eu participo do Padê também. Não diretamente, mas eu tô ali. Eu tô ali o tempo inteiro, no Metá…
Walter: O Metá é bem diferente do Padê.
Rômulo: E é uma coisa alí que tem uma certa atualização de uma vanguarda paulistana, na pesquisa do Kiko e da Jussara com a música africana que é diferente – só pra citar…
Walter: Estou falando da sonoridade.
Rômulo: Então, a sonoridade é diferente, o modo como o Kiko toca aquele violão não é o violão da harmonia e melodia.
Paulo: Deixa só eu fazer uma pargunta…
Walter: No Padê é!
Rômulo: É mais do que isso. É como ele soa.
Walter: Não. Não só, mas…
Rômulo: Não só, claro. Mas é principalmente.
Walter: Então, mas é diferente do Metá-Metá. Você falar do Metá-Metá tudo bem, eu concordo. Mas não no Padê.
Rômulo: O Padê tem uma coisa de botar plástico na corda…
Walter: O Padê não tem, isso é do Metá.
Rômulo: Desculpa, o Metá-metá, que vai muito além… Mas o Padê, aquele comportamento, o modo como as cordas são feridas pelo violão do Kiko…
Walter: Isso está na tradição total dessa de trabalho de harmonia… basta você comparar o Kiko tocando a música do São Jorge, “gerrreia no lombo do meu cavalo”, vê ele cantando isso, tocando, no show do Metá-metá, é uma sonoridade que tem tudo a ver com isso que você está falando, mas n ão é igual à gravação do Padê.
Rômulo: Claro, é diferente.
Walter: Então, a gravação do Padê, aquelas gravações do Padê estão nesse caminho de tratamento mais tradicional, se você quiser chamar, ou anacrônico, eu não concordo não, acho que isso que você falou pode ser um dos critérios, pode ser uma das coisas, mas não acho que seja a decisiva não.
Ouvindo esta parte do debate, sobre dois trabalho que eu não conhecia, fiquei como surdo em tiroteio, e fui procurar saber. Padê é o trabalho lançado em 2007 por Kiko com a cantora Juçara Marçal, Metá-metá é o trabalho de 2011 em que a eles se soma o sax e a flauta de Thiago França. E entre estes dois trabalhos, como notou Walter, há mais que a diferença de um instrumento a mais. Mas a entrada deste instrumento também é uma diferença maior do que pode parecer.
Antes de tudo, é bom saber que Kiko Dinucci é um estudioso das tradições afrobrasileiras. Em 2006, dirigiu o documentário Dança das Cabaças – Exu no Brasil, em que investiga a distorção que o orixá Exu, originalmente um mensageiro (entre muitas outras simbologias, à semelhança do Hermes grego) para sua associação com o Diabo feita pelo Catolicismo.
Não por acaso, Padê é a denominação de uma cerimônia de oferenda para Exu, mas também significa encontrar em iorubá. O álbum Padê parte exatamente daí, dos cantos do candomblé para encontrar possibilidades novas.
Imitação – com Padê
Porém, como assinala o Walter, em Padê o violão de Kiko segue em linhas gerais o desenvolvimento harmônico / melódico da tradição da MPB. Neste sentido, o ponto de ligação por excelência entre estes dois são os Afrossambas de Vinícius de Moraes e Baden Powell. Vinícius e Baden promovem em seu álbum referencial uma espécie de negociação entre o canto de candomblé e a poesia erudita, entre a divisão rítmica / escalas modais e o toque novo do violão de Baden, e o resultado impressionante a que chegam é o meio termo entre estes opostos, que se consolida em canção e MPB.
Pois onde Padê de alguma forma segue a tradição, Metá-metá a quebra, e a quebra radicalizando sua proposta. Metá-metá está bem num meio de caminho entre sofisticação e crueza. Mas não, no meio do caminho é justamente onde não está. Está na sofisticação e na crueza, em bicorporeidade, ou melhor, em ubiquidade, pois trata-se de um só corpo em dois lugares simultaneamente. Metá-metá faz a fusão do afrossamba sem sob uma outra forma (nos dois sentidos da palavra que não tem mais acento), por uma outra via que permite que cada elemento constituinte fique mais nítido o que é cru fica mais cru, o que é sofisticado soa mais sofisticado (não fossem sofisticadíssimos a poesia de Vina e o violão de Baden, que no entanto ficam parecendo fáceis ao ouvir os Afrossambas, no sentido de uma síntese de elementos e de uma poesia mais singela e mais direta, que era a que o Vinícius usava em letras.) Em Metá-metá, ao contrário, há espaço para ir mais longe nas duas direções, espaço que só é possível, obviamente, por ser aberto a partir do que já fora conquistado.
Por isso, é possível pensar Padê como uma espécie de preparação para o Metá, ou Metá como um desenvolvimento do Padê? Como que um tomar posse, um dominar a técnica, para depois ultrapassá-la? Sim, porque ao longo de quatro anos, se a visão de um músico não se desenvolve, alguma coisa está errada. Mas não, porque trata-se de dois trabalhos que partem de pressupostos diversos, assim como no debate Rômulo e Walter contrapõem visões de Chico e Caetano sempre sem permitir hierarquizações. Se em Padê, o acompanhamento harmônico é a base, em Metá o pressuposto é outro. Kiko acompanha canções inteiras fazendo um único riff ao violão; toca violão preparado, colocando papel ou plástico sobre as cordas (como nota o Rômulo); o sax de Thiago França é escrito e arranjado pari passu com o violão, dobrando os riffs, fazendo às vezes o baixo ao definir a harmonia mudando a nota enquanto o violão repete o mesmo desenho, dando peso e volume ao som, em posição muito diversa de um instrumento solista, até mesmo fora do idioma do instrumento, completamente a serviço da canção.
Em língua ioruba a palavra metá significa três, sendo assim metá-metá pode ser traduzido em um sentido mais próximo à tradição africana como três ao mesmo tempo, ou seja, a síntese de três elementos em um, informa próprio grupo. O terceiro elemento incorporado ao som é aquele que, à falta de nome melhor, tem sido chamado de timbre, mas que na verdade é a visão deste como condutor, a possibilidade de um mesmo desenho de violão se repetir na condução inteira da canção, sem que ela fique pobre por isso, como em Obá Iná. Ou de reverberar o choro tradicional paulista emulado por Caetano em Sampa e ao mesmo tempo o canto-fala da Lira Paulistana em Trovoa. Ou injetar uma boa dose de delicadeza no lirismo de Vale do Jucá, mas também de estranhamento, ao repetir o mesmo dedilhado no violão preparado e a mesma linha da flauta de forma hipnótica, para a voz de Juçara quase flutuar sobre esta base.
Em todo o álbum, o diálogo implícito na cultura afrobrasileira ocorre, como emUmbigada, quase didática como um manual de semba. À parte participações especiais, apenas na segunda metade as canções passam a ter acompanhamento percussivo explícito, e de certa forma, quando surge, a percussão dá peso adicional ao arranjo, mas pode ser pensada como estando no limite do redundante, diante do vigor percussivo do violão do Kiko.
Metá-metá, com Padê, são aberturas de caminho, são possibilidades, explorações. São demostrações de que a pluralidade de caminhos da música brasileira é algo a ser valorizado, que vertentes diversas são passíveis de diálogo, de acrescentamentos, de análises combinatórias. Que a sofisticação da da cultura popular e a força da cultura erudita, e vice-versa, podem ser conciliadas no projeto de país que a MPB representou e representa, mas não de forma monolítica, pois o contraste interno entre estes elementos numa canção também são de uma potência e uma beleza explosivas. Que a fusão sensacional da bossa-nova encontra correspondente na fusão sensacional do rock, e que estas fusões também são fundíveis entre si em diferentes combinações. E que a sentença já meio batida de que a soma de elementos é maior que os elementos em si, quando se quer encontrar algo, continua valendo, para pessoas, culturas e sons.
Trovoa – do Maurício Pereira
Vale do Jucá – do Siba
Obá Iná – do Douglas Germano
Serviço, então:
My Space – 
Kiko Dinucci;
My Space – 
Juçara Marçal
Para baixar Padê; e
Para baixar 
Metá-metá (há um aplicativo para baixar o álbum com vídeos e ficha técnica, mas pessoalmente não consegui. Mas dá pra baixar só o MP3 também).
P.S. Depois de escrito e publicado o artigo, descobri no perfil do Kiko Dinucci no Facebook que o Metá-metá está com um segundo álbum pronto, chamado… Metal Metal! O trocadilho infame e ótimo (pois trocadilho é melhor quanto mais infame) aprofunda o caminho tomado no primeiro álbum. Aguardamos por aqui.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Historiadores chamam revista Veja de 'medíocre, pequena e mal intencionada'

 
 
Associação divulga nota de repúdio contra a revista, que chamou o historiador Eric Hobsbawm de 'idiota moral'
São Paulo – A Associação Nacional de História (Anpuh) divulgou ontem (9) nota em que “repudia veementemente” o tratamento dado pela revista Veja ao historiador Eric Hobsbawm – que o chamou de “idiota moral” na matéria sobre sua morte (ocorrida no dia 1º) publicada na edição desta semana.
Segundo a nota, trata-se de “um julgamento barato e despropositado”, que revela uma mentalidade “medíocre, pequena e mal intencionada”.
Leia a íntegra:
Resposta à Revista Veja
Na última segunda-feira, dia 1 de outubro, faleceu o historiador inglês Eric Hobsbawm. Intelectual marxista, foi responsável por vasta obra a respeito da formação do capitalismo, do nascimento da classe operária, das culturas do mundo contemporâneo, bem como das perspectivas para o pensamento de esquerda no século XXI. Hobsbawm, com uma obra dotada de rigor, criatividade e profundo conhecimento empírico dos temas que tratava, formou gerações de intelectuais. Ao lado de E. P. Thompson e Christopher Hill liderou a geração de historiadores marxistas ingleses que superaram o doutrinarismo e a ortodoxia dominantes quando do apogeu do stalinismo. Deu voz aos homens e mulheres que sequer sabiam escrever. Que sequer imaginavam que, em suas greves, motins ou mesmo festas que organizavam, estavam a fazer História. Entendeu assim, o cotidiano e as estratégias de vida daqueles milhares que viveram as agruras do desenvolvimento capitalista. Mas Hobsbawm não foi apenas um "acadêmico", no sentido de reduzir sua ação aos limites da sala de aula ou da pesquisa documental. Fiel à tradição do "intelectual" como divulgador de opiniões, desde Émile Zola, Hobsbawm defendeu teses, assinou manifestos e escolheu um lado. Empenhou-se desta forma por um mundo que considerava mais justo, mais democrático e mais humano. Claro está que, autor de obra tão diversa, nem sempre se concordará com suas afirmações, suas teses ou perspectivas de futuro. Esse é o desiderato de todo homem formulador de ideias. Como disse Hegel, a importância de um homem deve ser medida pela importância por ele adquirida no tempo em que viveu. E não há duvidas que, eivado de contradições, Hobsbawm é um dos homens mais importantes do século XX.
Eis que, no entanto, a RevistaVeja reduz o historiador à condição de "idiota moral" (cf. o texto "A imperdoável cegueira ideológica da Hobsbawm", publicado em www.veja.abril.com.br). Trata-se de um julgamento barato e despropositado a respeito de um dos maiores intelectuais do século XX. Vejadesconsidera a contradição que é inerente aos homens. E se esquece do compromisso de Hobsbawm com a democracia, inclusive quando da queda dos regimes soviéticos, de sua preocupação com a paz e com o pluralismo. A Associação Nacional de História (ANPUH-Brasil) repudia veementemente o tratamento desrespeitoso, irresponsável e, sim, ideológico, deste cada vez mais desacreditado veículo de informação. O tratamento desrespeitoso é dado logo no início do texto "historiador esquerdista", dito de forma pejorativa e completamente destituído de conteúdo. E é assim em toda a "análise" acerca do falecido historiador. Nós, historiadores, sabemos que os homens são lembrados com suas contradições, seus erros e seus acertos. Seguramente Hobsbawm será, inclusive, criticado por muitos de nós. E defendido por outros tantos. E ainda existirão aqueles que o verão como exemplo de um tempo dotado de ambiguidades, de certezas e dúvidas que se entrelaçam. Como historiador e como cidadão do mundo. Talvez Veja, tão empobrecida em sua análise, imagine o mundo separado em coerências absolutas: o bem e o mal. E se assim for, poderá ser ela,Veja, lembrada como de fato é: medíocre, pequena e mal intencionada.
São Paulo, 05 de outubro de 2012
Diretoria da Associação Nacional de História
ANPUH-Brasil
Gestão 2011-2013

domingo, 21 de outubro de 2012

W. Shakespeare



Depois de algum tempo você aprende a diferença, sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança.
E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas.
E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.
E aprende a construir todas as estradas de hoje, porque o terreno de amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão.
Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.
E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas não se importam…
E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoa-la por isso.
Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobre que leva-se anos para construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida.
Aprende que as verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida.
E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher.
Aprende que não temos que mudar de amigos, se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada e terem bons momentos juntos.
Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa? Por isso, sempre devemos deixar as pessoas com palavras amorosas, pode ser a última vez que a vejamos.
Aprende que as circunstâncias, e os ambientes, tem influencia sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser.
Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e o tempo é curto.
Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve.
Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.
Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.
Aprende que a paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes, a pessoa que você espera que o chute quando você cai, é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.
Aprende que a maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que você teve e o que você aprendeu com elas, do que com quantos aniversários você celebrou.
Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha.
Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel.
Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar a si mesmo.
Aprende que com a mesma severidade com que se julga, você será em algum momento condenado.
Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte.
Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.
Portanto plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores.
E você aprende que realmente pode suportar…. que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais.
E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida !

W. Shakespeare

sábado, 20 de outubro de 2012

Jorge Ben Jor - Parte 3/5

Jorge Ben Jor - Parte 5/5 (Final)

Jorge Ben Jor - Parte 2/5

Três Charles

Ouvindo o sensacional documentário sonoro Imbatível ao extremo, entre muitas descobertas, me dei conta de uma trilogia de canções entre os álbuns de 1969 e 1970, gravados ambos com o incrível Trio Mocotó. Uma pequena e algo imprecisa saga em três capítulos, no entanto incrivelmente coerentes entre si, e um excelente exemplo entre tantos da capacidade de Benjor de sintetizar complexidades na simplicidade aparente de seu estilo muito particular.
Take it easy, my brother Charles, do álbum de 69, é um despretensioso apaziguamento. Nenhuma história é contada, mas subentendida: Charles, irmão de cor de Jorge, está prestes a se descontrolar. Jorge, para acalmá-lo, faz um libelo à paz, à sugestão, à simpatia. Ouvida distraidamente, a letra não parece fazer mais sentido do que isto, com sua inesperada menção à chegada do homem à Lua no meio. Ainda assim, sua levada empolgante, entre o soul e o samba, tem algo a dizer. O soul, gênero musical associado à luta pelos direitos dos negros, misturado ao ritmo negro brasileiro por excelência, embalando a expressão irmão de cor, tudo isso já dá pistas sobre o que Jorge está falando. Mas as pistas se materializam ao ouvir a canção que fecha o álbum:
Charles Anjo 45 conta toda a história que Take it easy não conta. A história do dono do morro, temporariamente preso mas idolatrado e esperado ansiosamente de volta (Antes de acabar as férias nosso Charles vai voltar – ele se refere às férias forçadas citadas antes. Charles vai fugir), nos remete a um período de romantização da marginalidade (Seja marginal, seja herói, dizia Hélio Oiticica) que ficou para trás em tempos de UPP. Mas o discurso de Jorge é mais sutil, pois, embora cantada numa discreta primeira pessoa, em especial o refrão, o corpo da letra de Charles anjo 45 oscila entre a persona do próprio Jorge e a de outra pessoa, um personagem, um morador do morro. O discurso de Jorge transita entre o endosso a Charles e a postura de um expectador mais ou menos neutro.
Ouvida retrospectivamente depois de Charles anjo 45, Take it easy my brother Charlesganha desdobramentos de tensão. O aborrecimento de Charles, em uma situação não explicitada, pode resultar em violência, mesmo em morte. A canção solar esconde em si possibilidades tenebrosas. O soul também era o som dos mafiosos, de gangsters, dos que flertavam com a marginalidade. Mas o samba rasgado Charles anjo 45 não tem necessidade de repetir o paralelo já traçado sua letra sem rodeios exige uma ambientação também direta. A passagem do soul para o samba ocorre como Jorge assimila o black is beautiful em Negro é lindo, como lembra bem Fred Coelho no documentário da Rádio Batuta.
Jorge interpreta o Anjo 45 em sua sintaxe característica, entre cantada e falada mesmo quando melismática, quase sem destacar pontos específicos da letra, como um bate-papo de boteco, numa aproximação com o ouvinte. A sempre interessante melodia de Jorge avança movida pela inflexão da fala, num voo de mosca varejeira que parece não ter direção mas tem alvo certo. Jorge quase não a usa para destacar pontos específicos ou dramatizar passagens, seu interesse é fazer a crônica do morro. Já Caetano Veloso teve uma leitura diferente.
Caetano, ao contrário de Jorge, trata de sublinhar cuidadosamente em sua interpretação a melodia da canção, inclusive diminuindo muito seu andamento. Ao fazer isso, tira dela o caráter naturalista e explicita o distanciamento em relação aos acontecimentos, situando-se numa falsa e algo irônica primeira pessoa. Tudo isso que aumenta a dramaticidade da música. Já a gravação de Ben cria esta dramaticidade pelo avesso, ao acelerar brusca e tremendamente o andamento depois do fim da letra. Aí torna-se visível uma tensão que era latente em todo o discurso anterior, em quesaraivadas de balas pro ar são uma celebração.
Então, no álbum seguinte de Jorge, Força Bruta, um novo personagem entrou em cena.
Assim como Charles anjo 45 ressignifica retrospectivamente Take it easy, Charles Jr., ressignifica novamente as duas canções precedentes. Outra vez cantada na primeira pessoa, ela assume uma terceira forma: nem o aparente livre improviso da primeira, nem a história encadeada da segunda, desta vez o que temos é um discurso articulado, uma dissertação, um manifesto. E outra vez a persona de Jorge transita pelo personagem, mas agora de forma diversa: não há o distanciamento. Jorge agora chega efetivamente a ser Charles Jr., toma integralmente para si seu discurso.
Charles Jr., por óbvio, é filho do Anjo 45. Filho da marginalidade, filho da violência. (E a relação do uso do inglês Junior também faz paralelo com o take it easy, e por extensão com o universo do soul da primeira canção, com todos os seus desdobramentos.) Mas o que era um dado objetivo agora é estendido e entendido: Pois eu nasci de um ventre livre / Nasci de um ventre livre no século XX. A herança da escravidão que levou Charles, o irmão de cor, à marginalidade, agora é convertida em uma afirmação de liberdade. A marginalidade foi o estranho, enviesado e possível meio de ser livre, e que ainda assim o levou à prisão. Não há nem sombra da glorificação deste caminho, apenas a constatação. Charles Jr. não se identifica com a marginalidade, mas também não se desvenciha dela. Pois eu já não sou não não o que foram os meus irmãos, masEu também sou um anjo: A identificação com o pai, que vem desde o nome, não implica em seguir seus passos, mas em abrir um novo caminho, como ele abriu. Seja marginal, seja livre. Seja um anjo, seja herói.
As três canções tem a mesmíssima estrutura: refrão curto e grosso que ecoa durante toda a letra, esta conversada sobre uma sequencia de 3 ou 4 acordes, não mais, e novamente o refrão, agora como uma reafirmação implícita de tudo o que foi dito e contado. Um apaziguamento, um festejo, uma reivindicação, um crescendo de tensão, cuja culminância é expressa no andamento mais lento, quase andante, e destacada no arranjo de cordas de Charles Jr. Onde o intermezzo, ao contrário da feroz batucada anterior, é de um violão solo, conseguindo expressividade análoga pelo caminho inverso.
Mas o que talvez seja ponto de ligação mais interessante entre estas três canções é a volta sutil, na terceira delas, da menção que soava tão arbitrária na primeira, da chegada do homem à Lua. Se em Take it easy ele cantava
Depois que o primeiro homem
Maravilhosamente pisou na lua
Eu me senti com direitos, com princípios
E dignidade
De me libertar
Agora ele explica e desenvolve:
Eu tenho fé e o amor e a fé
No século vinte e um
Onde as conquistas científicas espaciais medicinais
E a confraternização dos povos vai vai
E a humildade de um rei
Serão as armas da vitória
Para a paz universal
Mas há uma diferença fundamental entre estas duas passagens: se na primeira as conquistas científicas espaciais davam vazão à luta por uma liberdade pessoal, Charles Jr. já almeja bem mais alto e mais amplo. O pensamento de Jorge Ben ao longo destas três canções traça uma trajetória de refinamento. Seu sonho não é mais individual, e sim coletivo. O apaziguamento de Charles, personagem real, companheiro de peladas da infância de Jorge Ben, dá lugar ao da humanidade, por um mundo em que o caminho da libertação de Charles, e suas armas da vitória não precisem ser um revolver calibre 45. Charles Jr. é um passo civilizatório adiante, um passo utópico, na direção de um mundo em que o lado escuro de Take it easy não seja necessário, em que a vida do Anjo 45não seja em vão.