O Hóspede Despercebido (Paulo Leminski)
Deixei alguém nesta sala
que muito se distinguia
de alguém que ninguém se chamava,
quando eu desaparecia.
Comigo se assemelhava,
mas só na superfície.
Bem lá no fundo, eu, palavra,
não passava de um pastiche.
Uns restos, uns traços, um dia,
meus tios, minhas mães e meus pais
me chamarem de volta pra dentro,
eu ainda não volte jamais.
Mas ali, logo ali, nesse espaço,
lá se vai, exemplo de mim,
algo, alguém, mil pedaços,
meio início, meio a meio, sem fim.
que muito se distinguia
de alguém que ninguém se chamava,
quando eu desaparecia.
Comigo se assemelhava,
mas só na superfície.
Bem lá no fundo, eu, palavra,
não passava de um pastiche.
Uns restos, uns traços, um dia,
meus tios, minhas mães e meus pais
me chamarem de volta pra dentro,
eu ainda não volte jamais.
Mas ali, logo ali, nesse espaço,
lá se vai, exemplo de mim,
algo, alguém, mil pedaços,
meio início, meio a meio, sem fim.
[na minha a tua ferida] (Paulo Leminski)
essa a vida que eu quero,
querida
encostar na minha
a tua ferida
querida
encostar na minha
a tua ferida
[matéria é mentira] (Paulo Leminski)
essa idéia
ninguém me tira
matéria é mentira
ninguém me tira
matéria é mentira
[não fosse isso] (Paulo Leminski)
não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase
e era menos
não fosse tanto
e era quase
[esta vida é uma viagem] (Paulo Leminski)
esta vida é uma viagem
pena eu estar
só de passagem
pena eu estar
só de passagem
coração
PRA CIMA
escrito embaixo
FRÁGIL
PRA CIMA
escrito embaixo
FRÁGIL
[quem for louco que volte] (Paulo Leminski)
vida e morte
amor e dúvida
dor e sorte
quem for louco
que volte
amor e dúvida
dor e sorte
quem for louco
que volte
HAI KAI (Paulo Leminski)
O ideograma de kawa, "rio", em japonês, pictograma de um fluxo de água corrente, sempre me pareceu representar (na vertical) o esquema do haikai, o sangue dos três versos escorrendo na parede da página..
HAI
Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.
KAI
Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.
Eis que nasce completo
e, ao morrer, morre germe,
o desejo, analfabeto,
de saber como reger-me,
ah, saber como me ajeito
para que eu seja quem fui,
eis o que nasce perfeito
e, ao crescer, diminui.
KAI
Mínimo templo
para um deus pequeno,
aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
meu extremo anjo de vanguarda.
De que máscara
se gaba sua lástima,
de que vaga
se vangloria sua história,
saiba quem saiba.
A mim me basta
a sombra que se deixa,
o corpo que se afasta.
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