segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Carlos Drummond de Andrade - Casa Arrumada







Casa Arrumada
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Casa arrumada  é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa
entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um
cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os
móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras
e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições
fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca
ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.

2 comentários:

Dorei Fobofílica disse...

Olá, querido!

Adorei a casa com vida, com s fios puxados do tapete e o fogão gasto, com cheiro de vapor do banheiro e principalmente com os lençóis em desalinho por a cama desarrumada é a minha cara rsrsrs

Beijinhos e uma frase dele que adoro para ti:

“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.” (Carlos Drummond de Andrade)

doreifobilica@yahoo.com.br

Cabrito Lunático disse...

Querida amiga, mulher que transborda tesão e vida, tb compartilho com este viver do Drummond, além disso, acho que temos que doar/dar a alma e o espirito para "esquivar-se do sofrimento" e encontrar a felicidade.

É isso aí gatinha linda, gostosa e que neste momento tenho louca vontade de cheirar sua flôr para sentir o gosto de seu nectar.

Bj gostoso