sábado, 22 de outubro de 2011

Portugal, uns fados

Os Fados da Mouraria
Uma coisa que sempre me deixou encasquetado em relação à formação musical brasileira é a nossa quase absoluta falta de comunicação com certas culturas muito próximas. Uma delas é a da América Latina, com sua imensa riqueza de tangos, milongas, habaneras, mambos e rumbas - com a honrosa, mas muito contestada, exceção do bolero. Mas esta é talvez historicamente explicável pelo isolamento entre Brasil e o restante da AL, devido aos conflitos entre as colonizações portuguesa e espanhola. O que não posso entender é o motivo desta incomunicabilidade com Portugal, e porque estilos como o vira e o fado são vistos como exóticos e mesmo cafonas por aqui, apesar de nossas raízes comuns.
E esta visão de exotismo se torna ainda mais estranha ao se saber que o fado, assim como o choro e o samba, tem sua origem nos mesmíssimos formatos musicais, a modinha e o lundu. Embora haja também uma clara influência moura no fado, não há nenhum registro deste estilo antes do século XIX. Outro ponto em comum é o fato de fado e samba terem sido ritmos ligados à marginalidade. Cantoras de fado em geral eram prostitutas, e isto se reflete nas letras de muitos fados clássicos, cantados do ponto de vista feminino e falando de amores bandidos – aliás, as referências aos homens amados e infiéis como ciganos são outra ligação com este submundo, uma vez que os ciganos, como os mouros (com diferenças históricas importantes, claro), sempre foram considerados um povo intruso e mal vistos  pela população.
Mas discutir as origens do fado é tarefa para estudiosos com bem mais estofo que eu. Limito-me agora a indicar o excelente Blog da Severa (Maria Severa, tida como a primeira cantora de fado), onde as tradições do estilo são esmiuçadas, e o Museu do Fado (aqui a ótima página que conta sua história). Do que eu trato aqui são das possibilidades do fado como estilo de canção, e são imensas justamente no lidar com esta tradição.
Ai, Mouraria – Amália Rodrigues (letra aqui)

Antes de tudo, uma explicação: a Mouraria é o antigo bairro mouro de Lisboa (sim, mouros e cristãos conviveram em relativa harmonia durante séculos na Península Ibérica, explicam os historiadores hoje). Havia também a Judiaria, que hoje não existe mais, assim como a Mouraria é hoje um bairro aberto a todo credo - tanto que há nele a Rua do Capelão. E na Rua do Capelão há o Largo da Severa, em homenagem à fadista que viveu ali. Assim, a Mouraria tem uma relação, digamos, geográfica, com o surgimento do fado, para além de questões de estilo – que também as há.
Ai, Mouraria é um clássico do fado, gravada por quase todo fadista que se preze. É uma canção delicada, com uma parte em tom maior e outra em tom menor – e aí cabe notar que a primeira parte, em tom menor, é inteiramente dedicada à lembrança do amado que se foi, e a segunda, em tom maior, é toda voltada a relembrar o território, o bairro, as ruas. Existe como que uma territorialização do sentimento, uma ligação profunda com o lugar, mas que aqui aparece dividida, como se o espaço físico servisse de consolo para a ausência da pessoa, uma identificação quase completa entre eles. Quase, porque permanecem um em cada tom, um em cada estrofe.
Amália, claro, segue o instrumental ritmicamente homogêneo e cadenciado que é tradicional, e sobre esta cama de cordas dedilhadas sua voz não se derrama, mas se contém. O canto do fado é de um imenso sofrimento que não se abre, que é cheio de subentendidos na voz que se desdobra em melismas, mas permanece digna, como digna é a figura da cantora, herdeira das prostitutas de bares e cafés, mas de xale negro e uma rosa ao cabelo, a rosa chamando à vida, o xale lembrando um luto que nunca termina. As quase paradas da música são como tentativas de a interpretação escapar e se derramar, mas logo reprimidas. Uma dor cotidiana.
Corta para Dulce Pontes cantando o Novo fado da Severa (letra aqui - Dulce não canta a segunda estrofe)

O Fado da Severa original é de 1848, de autoria de Sousa do Casacão, e refere-se à própria Maria Severa, que falecera um ano antes (veja a letra aqui). Este é de Júlio Dantas e Frederico de Freitas e já se refere ao lugar, ao Largo da Severa, na Rua do Capelão, na Mouraria (outra vez a passagem de pessoa a território). Júlio foi o autor, em 1901, do romance A Severa, que em 1931 tornou-se o primeiro filme falado de Portugal, com esta canção na trilha sonora. Outra dificuldade da conciliação surge nos versos finais, que expressam um desejo supremo: Viver abraçada ao fado, morrer abraçada a ti. Ou o fado, ou o homem amado, nunca na vida os dois juntos, sempre uma falta, uma ausência.
A interpretação de Dulce Pontes é a explicitação do implícito no fado. As gravações dela foram acompanhadas de muito sucesso e um bocado de polêmica, por ela escancarar em sua interpretação o sofrimento contido de Amália, mais até do que por seus arranjos pop. Mesmo havendo uma marcação rítmica, ela se permite adiantar ou estender as frases à vontade, ad libitum, derramar completamente a voz. Para isso também contribui a diminuição sensível do andamento em relação ao fado tradicional. Por outro lado, isto permite a ela exacerbar uma característica que já é da interpretação do fado – e que é um dos indícios da ligação do fado à influência moura: os abundantes ornamentos vocais, arabescos, sem os quais as melodias do fado se tornam quase irreconhecíveis, a ponto de se poder afirmar que eles fazem parte da própria estrutura das canções.
Voltemos para Amália, cantando Zanguei-me com meu amor (letra aqui)

Zanguei-me tem letra de Linhares Barbosa sobre uma melodia popular conhecida como Fado da Mouraria. Esta letra tem um excepcional jogo de auto-referências. Logo na primeira estrofe, uma obra-prima tanto de romantismo exacerbado quanto de ironia a este mesmo romantismo, em quatro versos que praticamente explicam a essência do fado, a se alimentar do sofrimento por amor e devolvê-lo em música:
Zanguei-me com meu amor
Não o vi em todo dia
À noite cantei melhor
O fado da mouraria
A metalinguagem explícita (o Fado da Mouraria é a própria canção que conta esta história) envolve um pouco de humor, criando uma espécie de paradoxo temporal: como a fadista pode cantar uma canção que cita o fato de ela ter cantado antes esta mesma canção? Mas mais bem humorado ainda é o reconhecimento quase agradecido da dor de cotovelo como o motor do fado, um desdobramento dos versos do Novo fado da Severa, que citei acima: feliz no fado, infeliz no amor . O humor segue na estrofe seguinte,
O sopro duma saudade
Vinha beijar-me, ora, ora
Pra ficar mais à vontade
Mandei a saudade embora
em que o lidar com este sofrimento torna-se, por assim dizer, algo cultivado, voluntário, uma estranha forma de vida, para citar outro clássico do fado também gravado por Dulce Pontes, como este, e inclusive passível de ser interrompido… ainda que temporariamente.
Zanguei-me com meu amor – Dulce Pontes (Dulce não canta a terceira estrofe)

Dulce, assim como no Novo fado da Severa, não canta todas as estrofes da canção, o que também lhe rendeu críticas. Neste caso, talvez seu motivo tenha sido a negação do canto nos versos quem perde o amor na vida jamais devia cantar. O que absolve Dulce de uma possível adulteração do fado é um carinho patente em sua voz e na interpretação destas canções, carinho que é pelo homem amado, pelas ruas e bairros onde o homem pisa e o fado acontece, e finalmente se estende ao próprio fado, pela própria canção que ela interpreta. Na voz de Dulce, acontece, como já acontecera na de Amália e tantas outras, novamente a conciliação do amor pelo cigano citado no Novo fado da Severa – cigano sendo o que não se fixa nem no território nem no amor. Conciliação que ocorre também nos versos finais de Zanguei-me com meu amor,
Quando regressou ao ninho
Ele que mal assovia
Vinha a assoviar baixinho
O fado da Mouraria
onde o cigano adorado volta, enfim, para casa, talvez subindo a Rua do Capelão, passando pelo Largo da Severa, em plena Mouraria, dos rouxinóis nos beirais, dos vestidos cor-de rosa, dos pregões tradicionais (da letra de Ai, Mouraria), e assoviando o fado que lhe conta a história. Onde o amor tripartite, cujas partes alimentam umas às outras, se unifica: pelo homem eleito, de variados nomes; pelo lugar, território, torrão; pelo fado.
Este post é dedicado a Valéria Affonso, que me apresentou ao fado.
13
set
11

http://tuliovillaca.wordpress.com/

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